Meu nome é vida, olha pra mim

Texto por Simone Mello

Oi, meu nome é vida, tudo bem? Sabe quando a gente quase sufoca por guardar umas verdades que deveriam ser ditas, mas que ao invés disso engolimos para poupar transtornos? Eu estou sufocada, não aguento mais, vou ter que te dizer. Eu esperei por você em alguns momentos em que preferiu me ignorar e me deixar plantada esperando, e isso quase me fez perder a fé em você. Lembro uma vez, você tinha apenas treze anos, e não tinha programa melhor, eu tinha certeza que você ia me encontrar, naquela festinha de aniversário de sua melhor amiga do colégio. Eu estava lá, te esperando, mas você não apareceu. Não era só eu que estava te esperando – tinha o Fábio, o Bruno, as músicas e as luzes, tudo perfeito esperando por você, e fiquei sabendo que você ficou vendo TV em casa. Que mancada!

Teve a outra vez, com a galera da faculdade, naquele feriadão em que as pessoas mais legais resolveram passar quatro dias na praia. Você foi convidada! Porque não apareceu? Eu tentei te desculpar, achando que você estava sem dinheiro, ou que no fundo você tinha um convite ainda melhor, achei que você finalmente me surpreenderia, e que nós íamos acabar nos encontrando em outro lugar, talvez até outra praia! Mas não, fiquei sabendo que você não foi porque estava com vergonha de pôr um biquíni na frente da galera. Você realmente achou que estava gorda? Que tinha celulites e estrias demais para se desfazer de suas calças jeans? Pois eu tenho algo a lhe dizer. Ninguém naqueles quatro dias tirou a roupa, pelo menos não para pôr biquínis e sungas. Foram quatro dias de baralho, cerveja gelada, risadas incontroláveis, violão e muita chuva. Foram os melhores dias da vida de alguns ali, acredita? Ah, e tem mais uma coisa sobre aqueles quatro dias: Suas celulites e quilos a mais, simplesmente não seriam notados.

Uma vez estávamos no aeroporto: eu e seu grande amor, esperando por um beijo, um abraço apertado, e alguma palavra que desfizesse todos os mal-entendidos. Eu e ele esperamos até o último minuto. Mas aí veio a última chamada, ele embarcou, e eu fiquei com aquela cara de pateta. Você me deu mais um bolo. Teve uma vez que eu estava em Salvador. Você tinha uma entrevista de emprego lá, lembra? O salário era o dobro daquele que você ganhava aqui, e havia mil perspectivas profissionais e pessoais. E caramba, era Salvador! Não, não me venha com essa. Seus pais passariam muito bem, obrigada. Eles ficariam realizados com as notícias que chegariam de Salvador, e teriam sido as melhores. Por que você não foi ao menos ouvir o que eles tinham a dizer? Porque não foi respirar os ares de lá, olhar para o céu, ouvir o seu coração? Estava tudo pago, era só ir à bendita entrevista! Por que?

Pois bem, eu voltei para “nossa cidade”, meio humilhada, meio com o rabinho entre as pernas, mas fazer o que? Eu teria que achar alternativas ao meu plano A. Eu queria tanto que você tivesse ido, mas você às vezes parece que tem medo de mim. Você tem? Me conta qual é o seu problema, vai. Eu não posso fazer mais do que já faço, sabe? Eu faço bastante! Às vezes eu estou aí dentro da sua casa, principalmente quando você pega um livro, vivemos momentos legais juntos. Eu gosto quando a gente canta e dança enquanto escolhe a melhor roupa, eu gosto do jeito como você se diverte com o ar quente do secador na sua cara enquanto seca o cabelo. Mas eu tenho uma coisa bem importante pra te dizer: na maior parte das vezes, eu estou aqui fora.

Eu estou nos lugares mais inusitados, com as pessoas mais improváveis, muitas vezes. Mas como você vai saber, não é mesmo? Eu te conto! Você tem que respirar mais, e fundo, e ouvir a voz do seu coração! Ele vai te dizer onde estou. Pare de me dar bolos, pare de me decepcionar, ou eu vou acabar desistindo de você. Eu tenho amigos inseparáveis, e se você encontrá-los, vai me encontrar também. A coragem, a vontade, a curiosidade, todas elas indicam o caminho. Acredita nelas, vai, elas são legais. Mas eu também tenho gente que me odeia, que faz você se afastar de mim: o medo, a descrença, a preguiça, eles vão te fazer acreditar que não vale a pena, que eu não me importo se você vem ou fica. Ei, acredita em mim, eu me importo. Eu te quero, eu te convido, por favor, pare de me ignorar. Um dia, quando você menos esperar, eu não vou estar mais disponível, e vai ser triste se não tivermos passado bastante tempo juntos. Pare de se fazer de bobo, tá? Você sempre sabe onde me encontrar.  Pare de ser negligente, isso simplesmente não faz sentido. Olha pra mim.

A mudança do estado da matéria

Texto por Marcela Picanço

Talvez eu seja mesmo um caso à parte, como todo mundo sempre me diz, mas eu custo a acreditar. Me sinto completamento encaixada e igual as outras pessoas. Com os mesmos dilemas e situações reversas. Por isso acho tão fácil falar de mim e ser ouvida por muitos. A identificação é reciproca porque somos o mesmo. Mas, em alguns momentos em que eu me desligo, me sinto parte de outro lugar. Como se eu pudesse comandar um mundo feito com as minhas ideias. Me sinto como a lua em suas fases. Às vezes minguo, as vezes quero me aparecer por inteira. Mas esse processo de transformação me destrói por dentro. Como uma lagarta que vira borboleta ou a cigarra que canta desesperadamente antes de sair da sua casca para encontrar outra dimensão.

Vou tentando, aos poucos, me adaptar a mim mesma sem entender muito esse processo. Quando eu mudo, passo os dias refletindo e me testando, até eu dizer chega. Uma hora acaba e eu me acostumo com esse novo eu pronto pra dar mais um jeito na vida. Pronta pra pegar as malas de novo de sair por aí procurando um lugar que me mantenha sempre viva. Sempre tive muito medo de amar, porque amar era a certeza que eu tinha de que estaria estagnada. Mas amar é só mais a forma de voar, mantendo a cabeça em algo fixo.

E às vezes eu sinto que tem buraco dentro de mim. E em vez de sair procurando algo que faça essa dor parar de arder eu me procuro por todos os cantos, até concluir que eu faço parte de todos os lugares. Eu faço parte de mim e não há nada no mundo que consiga mergulhar nesse abismo que existe dentro de mim ou algo que acabe com essa fome pelo inconstante.

Se tentam me definir, eu viro bicho. Sempre fui o indecifrável. Sempre me confundo entre minhas verdades porque pra ser tão eu é preciso ser vários ao mesmo tempo. Me desafio o tempo todo, dentro da minha cabeça, fazendo um nó que se expande até meus cabelos que ficam completamente embaraçados. Fico embriagada diante de tanta euforia ao tentarem me entender. Eu sou o avesso do questionamento, mas também quero ser resposta. Se um dia me encontrar, eu volto pra mim e deixo de ser tão louca, tão solta, tão eu.

O emprego da sua vida ainda nem existe

Texto por Marcela Picanço

Os tempos mudaram, minha gente. E nós somos a última geração que viveu em um mundo sem internet e logo depois com internet. A gente viu essa ruptura, a gente viu as coisas surgindo, a gente viu a comunicação mudando. Quem tem cabeça pra lidar com essa confusão toda? Ninguém. Por isso a gente parece perdido. Aí vem a crise, a gente não arranja emprego, tem um monte de gente fazendo nada da vida e ganhando dinheiro por ser gatinho no instagram, tem um monte de gente querendo ser isso, porque quer viver a vida viajando e fazendo nada. Mas não dá pra fazer tudo. Ou você rala pra cacete pra poder fazer seu ano sabático e viajar pra onde quiser ou você é rico o suficiente e não precisa ligar pra nada disso. Não dá pra fazer os dois. Até essas blogueiras que vocês acham que viajam toda hora ralam pra caramba. Um dia desses fui num jantar de imprensa e conheci um bando de blogueiro desesperado porque tinha que arrumar a mala pra viajar no outro dia cedinho e tinha acabado de chegar de outra viagem no mesmo dia. Viajar é bom, mas toda hora cansa, principalmente porque viajar como blogueiro ainda é trabalho.

Eu já escrevi um texto sobre a geração Y e eu conto por que estamos tão frustrados. Pensa só, estamos no meio de uma revolução da era digital, a comunicação mudou todinha, novas profissões surgiram e o mundo está em crise e somos nós (geração entre 20 e 30 anos) que está iniciando a carreira, ralando pra caramba pra conseguir o que quer. Não tem como não entrar em parafuso.

Hoje, nossa maior crise é escolher um caminho, porque temos muitas possibilidades. É muita opção pra uma vida só. Eu queria ser atriz, escritora, blogueira, viajante, astronauta, degustadora de cerveja e ainda ficar domingo à noite assistindo tv em casa. E eu podia ser tudo isso, mas não de uma vez. Só que o problema é que cada escolha é uma renúncia, ou melhor, a cada escolha, a gente renuncia todas as outras possibilidades e isso é muito frustrante. Eu me vejo constantemente cercada de portas que eu poderia abrir, mas ao abrir uma, não tem como voltar atrás e eu nunca vou saber o que tinha atrás das outras portas que eu deixei de escolher. Mas eu tento me convencer do seguinte…Eu não acredito em destino, porque acho que a gente cria nosso destino a cada escolha que faz. Então, se a gente que cria a própria realidade, não existe nada atrás daquelas outras portas que eu não escolhi. O que existe ali atrás é a gente que inventa, a gente que traça. Daí fica muito mais fácil ir com fé e abrir a porta que a gente quer.

Mas voltando à crise (não a econômica, mas a pessoal). Internet, revolução digital, novas comunicações, possibilidades e uma coisa fantástica que a gente não ta vendo. Às vezes, a profissão da nossa vida ainda nem existe! Talvez seja a nossa chance de criar essa profissão. Por exemplo, analista de mídias sociais, blogueiro, analista de SEO, programador de app… nada disso existia 15 anos atrás. E quem sabe daqui a 10 anos o mercado esteja cheia de profissões novas. A internet possibilita lançar alguma coisa nova e alcançar muito mais gente em pouco tempo. Não preciso de um mega investidor pra fazer meu negócio pela internet. Pelo menos, no começo. E pensa só quanta coisa ainda vai mudar. A tecnologia cresce exponencialmente, ou seja, se a gente já viu essa transformação toda em apenas 15 anos, isso quer dizer que daqui a 15 anos vamos ter tido 30 vezes mais mudanças em um mesmo período de tempo.

Eu demorei muito pra entender isso. Sempre achei que eu era um ET que chegou aqui na terra e ficou perdido porque não queria fazer nada que existia. Até que, aos poucos, eu fui percebendo que eu podia juntar as coisas que eu gostava fazer. E pensar que na escola eu tava em parafuso porque não sabia se escolha jornalismo ou direito. Ah, como a gente é bobo! Então, a moral da história é que tudo bem se sentir perdido, porque ninguém entendeu ainda o que está acontecendo. Estamos no meio da mudança! E a mudança não é um evento, é um processo. E a parte boa é que agora nós temos a chance de mudar e criar algo novo. Saca só quanta coisa nova tá surgindo! Até a relação de consumo mudou. Hoje tá todo mundo em grupo de trocas em vez de sair comprando tudo novinho. Tá tudo se transformando e nós estamos no olho do furacão. Cabe a nós aproveitar o momento pra chorar e se lamentar ou perceber que não vamos entender nada agora e talvez não dê tempo pra entender em vida. Você acha que o pessoal do século 18 entendeu a revolução industrial? Nada! A gente só conseguiu decifrar essa mudança muito tempo depois. Precisamos tirar proveito disso tudo sem ficar nessa ansiedade louca. É hora de chacoalhar com as nossas certezas e investir no novo.

Sobre aquele mundo ao meu lado

Texto por Natália Beraldi

Mais uma vez atrasada, corri pelo saguão do aeroporto buscando a porta 36 de embarque, cruzando 2 minutos antes de fechar. No corredor, a caminho da aeronave, avisto uma mulher que me tranquiliza pela calma e serenidade em que caminha, mostrando que não sou a única. Por coincidência a poltrona dela era ao lado da minha, na janela. Não trocamos nenhuma palavra, sentamos e logo ela virou o olhar fixamente para a janela, e dali não saiu mais. O voo durou um pouco mais de 5 horas, e foi a única coisa que ela fez. Passaram-se por nos pessoas de todos os cantos, falando diversos idiomas, e enquanto eu observava buscando entender o que se passava com cada um deles, ela continuava lá, intacta. Pensei em cutucá-la e dizer que foi sem querer, tentar puxar uma conversa, mas algo me dizia que aquele momento, apesar de parecer agoniante, era o tempo que ela precisava ter, era algo que ela precisava passar, um turbilhão de vida se passava ali, naquela reflexão, de dores, amores, desilusões talvez. Pensei se ela podia ter deixado seu coração para trás no momento em que embarcou, ou se ela estava indo de encontro a ele.

Pensei em dizer que o amor vai pra onde tem que ir, pra onde tiver vida e um ombro, que ele pode superar essas milhas que já passamos, e muitas mais. Pensei em perguntar se ela estava deslumbrada com a vista e contar que eu fico assim também, choro facilmente, sinto a garganta fechar, o coração transbordar de deslumbre.

Eu quis chama-la quando o sol nasceu, quis comentar o quanto estava bonito, quis questioná-la se não ia fotografar aquele momento e quis pedir licença para encaixar meus olhos naquela vista também. Quis apertar a sua mão quando avistados a Cordilheira dos Andes de cima, em algumas partes coberta de gelo, em outras partes confundindo com nuvens de algodão.

Queria acreditar que ela estava feliz, que era um momento de liberdade e não de solidão. Queria lembra-la que não estava sozinha, e que o mundo estava esperando para curar qualquer coisa que algo ou alguém já houvesse causado. Queria enfatizar que ela seria capaz e que não precisava ter medo. Queria dizer que ela iria achar novos motivos e que ela podia chorar, de felicidade ou tristeza, seja o que for, menos de solidão. Não, ela não estava só. Ela estava pronta para descobrir qualquer coisa, e o mundo jamais a deixaria sozinha. Sua liberdade já tinha virado asas, bem maiores que as daquele avião.

Mas eu tinha certeza que o motivo daquele olhar perdido não estava naquela janela, e sim dentro do coração. Talvez o que ela sentisse fosse culpa, e eu jamais vou saber o tamanho do peso que ela carregava calada. Talvez ela só tenha resolvido ir embora e estava refletindo se havia sido uma das melhores ou piores decisões de sua vida. Talvez ela esteja procurando respostas e as suplicando em cima das nuvens. Talvez ela só esteja tentando aceitar. Talvez ela estivesse indo encontrar amigos, queridos apoios, ombros, alguns abraços ou cervejas. Talvez ela só precisasse se sentir mais segura. Talvez ela só estivesse buscando por si mesma.

Enquanto isso, eu só queria fazê-la enxergar o quão grande é o mundo, e o quão pequenos somos. Eu queria dizer que ela pode ser a comandante dessa história e desse destino. Que é possível começar e recomeçar, sempre que for preciso e de um jeito muito melhor.

Eu espero que ela se dê conta que, lá fora, lá em baixo, encontrará amor em cada canto, se esse for o seu desejo, e descobrirá que errar nem sempre significa um fim, e sim uma descoberta para um novo começo.

Havia três lugares, de um lado um homem dormiu o tempo inteiro, que sorte. E do outro, um mundo rodou. Talvez ela tenha sonhado acordada tudo o que o homem não conseguiu dormindo.

O que ela havia deixado pra trás?

Que história incrível aquela janela de avião descobriu aquele dia. Que desabafo feliz ela despejou por entre as nuvens.

E quando o avião pousou e as portas se abriram, eu quis olha-la pela última vez. Quando me virei com a intenção de despedida, ela ainda continuava lá. Parti desejando que aquela mulher, que passará horas ao meu lado sem desviar o olhar da janela daquele avião estivesse apenas feliz, apenas livre ou apenas indo em direção de um sonho, ou um amor, ou os dois. Que bonito seria…

As melhores músicas pra fazer sexo

Por BabyNative

Por BabyNative

Todo mundo tem uma lista de músicas preferidas pra fazer sexo. Pensando nisso, nossas colunistas liberaram suas playlists com as melhores músicas pra ouvir entre quatro paredes.  O mais legal é que cada um tem seu estilo, então tem música pra T-O-D-O-S os tipos de sexo que você quiser inventar de fazer! Vamos deixar essa segunda-feira mais animada, então aproveita pra baixar as músicas que você mais gostou e já pensa aí com quem você vai experimentar  nossa playlist😉

Sophia Alziri

Escolher essa playlist só me fez perceber como meu verdadeiro sonho é viver dentro de um clipe de hip hop.

1 – Know Yourself – Drake

Tô na fase e apenas fico louca mesmo.

2 -Lollipop – Lil’ Wayne

Apenas um clássico.

3 – Pyramid – Frank Ocean

Comecei a achar que essa devia ser a número 1, porque ela parece estar sendo escondida do mundo de tão poderosa que é. Impossível achar no Youtube e o clipe só existe no Vimeo. Muito suspeito.

4 – Skin – Rihanna

Veja a própria dançando essa musica e se una nessa corrente de tesão por /vontade de ser ela.

Pra ouvir a música sem ser ao vivo, clica aqui!

5 – All the Time – Jeremih

Porque sim.

Natália Moreira

1 – Portishead- Humming e All Mine

2- Alt-J

3 – I wanna be your dog – The Stooges

4 – Smoke city – Underwater Love

Bruna Smith

1- Chet Faker – Talk Cheap

2 – Lean on

3 – The XX – Intro

4 – Milky Chance- Stolen Dance

Simone Mello

A Simone põe todo o CD do Jack Johnson pra tocar!

Natália Beraldi

1- Rhye – the fall

2 – Portishead – glory box

3 – Lee Foss & Anabel Englund – Electricity

4 – Boyce Avenue – closer

5 – Jessie Ware – Say you love me

Marcela Picanço 

1- Since I’ve Been Loving You – Led Zeppelin

Pra aquela noite tomando vinho na sala com o climinha da luz amarela de abajur (e vocês nem se dão o trabalho de ir pro quarto).

2 – T-Pain – Up Down

Pra qualquer ocasião, porque sim.

3 – Wicked Game – Chris Isaak

Pra de manhã (esse é o meu despertador, pra já acordar no clima)!

4- Rihanna – Pour it Up

Sophia roubou a minha Skin, mas tenho outra igualmente maravilhosa.

5 – Alex Clare – Too Close

Porque não tem como não pirar.

Hora de desbravar a crise econômica e existencial que nos assombra

Abro a página do meu jornal preferido e me deparo com pelo menos 5 matérias que fazem meu coração apertar. Dólar a R$ 4,20? Eu ri. Tem dedo do STF aí querendo dar algum aviso pros maconheiros de plantão. Tudo interfere a economia, então, vai saber… (Agora tá R$3,90 – esse dólar tá pior que eu em crise de ansiedade). A gente vai bem mal, bem mal e ta fingindo que não tá vendo. A gente adora fingir que não tá vendo nada. Eu adoro fingir que não to vendo nada. Mas tem uma hora que alguma coisa aqui dentro explode e eu tenho que escrever, tenho que passar da cabeça pro papel, do peito pra uma tela de computador. Uma fagulha de angústia que se espalhe por aí pra ver se encontra outra mente pra povoar.

Outras notícias. Uma manchete em caps lock indagando: vai faltar água? Lógico que vai. A gente não tem governadores competentes e nem pessoas dispostas a mudar alguma coisa. Arrastão na praia de Ipanema, em Botafogo, no Humaitá. Eu vi um assalto na minha rua e ele tava noticiado no jornal como se ninguém soubesse que isso ia acontecer. Como se essa não fosse consequência de uma cidade completamente abandonada depois da Zona Sul, consequência de um país em crise. O mundo tá em crise. E aí vira um estardalhaço. Tá todo mundo meio perdido, mas vocês enlouqueceram?

Gente achando um absurdo os meninos não serem presos se não forem pegos em flagrante. Gente achando genial fazer revista nos ônibus que vão pra Zona Sul. Como se os policiais já não soubessem quem são esses menores, como se não existisse uma máfia por trás disso tudo. Como você se sentiria se fosse preso ou revistado por estar de chinelo, por ser da cor que é, por ser quem você é? Tem muita gente inocente que sofre com isso, tem muita gente que não tem nada a ver e só quer tomar um banho de mar. Esses meninos não são maus porque querem, eles estão à deriva. Assim como o mundo todo. Não existe Deus, não existem Ets controlando a terra, não existe uma conspiração secreta que dita o nosso destino. Nós estamos sozinhos. E esses meninos estão apenas mostrando o cinismo territorial que existe nessa cidade e, pra isso, existe solução, sim. Cuidar da cidade.

Tudo vai continuar igual enquanto a gente não entender que um político é um administrador que precisar administrar a cidade como uma empresa. E tem que ser daquelas empresas que saem nas revistas como um dos melhores lugares para trabalhar. Enquanto o Estado tiver o papel de “pai”, enquanto deputados puderem ditar o que é uma família, enquanto eles insistirem nessa guerra às drogas, não tem como evoluir, não tem como diminuir a violência. Mas nem o prefeito, nem o governador e nem o seu vizinho estão a fim de fazer isso. Ninguém tá a fim de cuidar da cidade. Tem gente que não tá a fim nem de arrumar a própria vida, como que vai pensar na cidade, no direito dos outros?

Arte: Christian Schloe

Arte: Christian Schloe

Não quero levantar nenhuma bandeira aqui, mas to tentando compreender tudo isso e pensando o que é justo ou não, o que é loucura ou não. Como diz uma amiga minha advogada, é melhor que tenham 100 criminosos soltos do que um inocente preso. E podem concordar ou não, mas o nome disso é justiça. Talvez você não tenha senso de justiça. Talvez você gaste mais tempo vociferando e reclamando dos outros do que tendo ideias ou transformando alguma coisa que realmente faça diferença. Minha proposta é que o problema seja solucionado pela raiz. Talvez tenha que trocar de governo? Sim, com certeza. Mas não é pedindo impeachment num domingo de manhã que isso vai acontecer.

A nossa estrutura tá ferrada há muito tempo. E não adianta ficar enfeitando por fora com a base se desmoronando. Temos que nos informar mais, temos que ir pra rua de novo, temos que indagar e temos que nos indignar, mas não só quando tudo já virou um caos. Essas medidas imediatistas são supérfluas e não é maior policiamento que vai fazer essa revoltar simplesmente parar. É tipo querer acabar com a epidemia da dengue matando mosquito na mão! É preciso fazer toda uma campanha para que ninguém deixe água parada, tomar as medidas certas para que o mosquito não se prolifere. E é nosso dever também. A gente vive aqui, não tem como comprar uma passagem pra Marte. E hoje, a gente tem aquilo que nos diferencia de todas as outras gerações. A gente tem a Internet.

Nós somos os únicos que podemos nos tirar dessa crise econômica e existencial que nos assombra. Vamos criar um novo jeito de fazer história. Já ouviu falar em Wikinomia? Deixo pra explicar melhor em outro texto, mas eu acho que esse é o futuro. O capitalismo, na minha opinião, é um dos melhores sistemas econômicos porque ele dá oportunidade para as pessoas escolherem. (Pelo amor de deus, não to dizendo que todo mundo tem as mesmas oportunidades de se darem bem na vida). Mas a questão é que esse modelo econômico já tá defasado. Ele precisa ser remodelado, porque desse jeito não cabe mais. A indústria que estimula o consumo não cabe mais.Tudo vai estar defasado daqui a 5 anos porque nossa tecnologia cresce em exponencial e essas nossas concepções de mundo ficarão pra trás. A gente tá vivendo esse momento louco, transformador, desesperador, mas é preciso encarar com inteligência. Lembra daquela história antiga de que as pessoas achavam que a terra era quadrada e no final do mar tinha um monte de monstros? Estamos na mesmo situação e precisamos ser corajosos para desbravar esse novo mundo que vem aí.

Fomos para Dismaland, o parque muito doido do Banksy

disma13 

Texto e fotos por Sophia Alziri

Se você acabou de sair de um coma ou voltar de uma abdução alienígena e não tá sabendo que tá rolando uma exposição curada pelo Banksy, a gente explica aqui!

Se você não está nessa situação, além de ser um felizardo, já deve ter visto mil matérias sobre isso, mas agora você pode ler um relato de alguem que esteve lá e vai te contar o que viu.

Minha saga rumo à arte começou às 10h da manhã de (mais) um dia chuvoso, quando peguei um trem em Londres pra Weston-Super-Mare. Crente que ia chegar às 11h30, quando o parque estivesse abrindo. Coitada, depois de percorrer uma infinidade de quilômetros em que pelo menos 90% do caminho achei que estava indo pra puta que o pariu, cheguei na minha estação final e concluí que, de fato, estava, mas era lá mesmo que ficava a exposição.

Acabei chegando às 13h numa cidade que tem a maior sensação de coisa caída, e dá pra praia mais deprimente que eu já vi. Realmente, o clima chuvoso no interior da Inglaterra não ajuda. Mas pra começar, eu não encontrei o mar! A cidade parecia fantasma. Achei estranho porque imaginei que com a exposição estaria cheia de gente.

A belíssima vista pro mar de Weston-Super-Mare

Tudo isso já estava prometendo uma ótima ambientação pro tema do parque. Dismal em inglês significa: Triste, sombio, funestro, abatido ou como os jovens chamariam: bad vibe generalizada.

disma11

Já na bilheteria a atendente me diz: se eu fosse você nem entrava. Deixou o troco cair na lama. Haha, começou massa. Fiquei animada apenas por um segundo quando me dei conta da fila que me esperava.

disma12

Depois de enfrentar uma fila de uma hora e meia (lucro já que teve gente que no final de semana esperou 5 horas) na chuva, antes mesmo de entrar já estava a cara da decadência. Ótimo, a vibe tava armada.

disma24                          
A pessoa mais deprimida que já vi na vida, a explicação veio alguns segundos depois quando me deparei com o sapato que ele usava. Realmente a vida da pessoa que chega ao ponto de usar isso não deve estar legal.

2015-08-24 14.12.20

A entrada é uma instalação maravilhosa do Bill Barminski reconstituindo uma segurança de aeroporto, só que tudo feito de papelão hahaha. Sério é maravilhoso. Tudo, câmera, máquinas de raio x, o cap dos policiais, computador.

disma14

disma25

disma15

Os guardas nos tratavam como lixo. E muito sérios perguntam coisas do tipo: você mesmo que preparou sua mochila? Você andou bebendo? Você está portando alguma arma? Um dos guardas fez uma velhinha fofa ser revistada. Não entendi bem se ela tava entendendo que era uma encenação ou não, fiquei com peninha.

Passei tranquila pela revista e fiquei tirando fotos quando uma das guardas me escorraçou pra fora como se eu fosse uma vira-lata. Eu como boa idiota ri e ainda gostei. Pedi o panfleto do mapinha pra uma mulher e ela jogou no chão, catei e achei graça. Esse banksy é mesmo um piadista.

Agora, o relato fica confuso porque, quando você entra lá,  é tomado por uma euforia que embaralha todos os pensamentos. São várias atrações, e na maioria das coisas que você tem que interagir tipo o carrossel, roda gigante, o trailer que gira, tiro ao alvo, pescaria, é preciso pagar 1 libra.

disma8

dimal10

O tiro ao alvo é nada a ver. Você fica atirando rolhas em umas latas, mas valeu pelas risadas que eu dei.

disma33

disma22

O que esperar: jovens fazendo selfies tristonhas (é a selfie oficial). Velhinhos locais e famílias levando suas crianças em um grande passeio de família. É serio. Talvez tenha sido porque fui num dia de semana à tarde, mas fiquei bem surpresa com o público presente.

A primeira coisa que vi foi uma grande galeria com fotos, quadros, esculturas. Tudo com temática critica/ irônica/ política claro.

Não tirei muita foto porque

1 – A bateria tava acabando (quando não ta?)

2 – Precisava viver aquilo intensamente.

Mas essas foram minhas coisas favoritas:

disma20

Paco Pomet

disma21

Jani Leinonen

disma17

Jessica Harrison

disma18

Dietrich Wegner

disma31

A mega maquete da cidade é sensacional. Muito incrível ver a gente ali pequenininho, numa sensação gigante/força maior.

The Aftermath Dislocation Principle trailer v 3 from jimmy cauty on Vimeo.

A obra de arte mais engraçada já criada.

Imagina a cena. Um palco que é uma pista de carrinho bate-bate. Começa uma música de suspense, tudo escuro… e entra um carrinho com uma Morte dirigindo desenfreada, batendo na borda do palco e fazendo aquele barulhão que faz quando os carrinhos se batem. De repente começa a tocar Stayin’ Alive, luzes de disco acendem e ela fica ensandecida girando e se batendo pela pista. Ri alto. A musica para e a Dona Morte vai embora. Não entendi bem o que ele queria criticar com aquilo, mas era de uma zoera que não consegui aguentar. Tive que rir.

Se você não tá bom de imaginação pode roubar e dar play aqui
(vendo agora nem foi engraçado mas juro que na hora foi muito)

disma34

Entrando no castelo rolava um filinha onde ficava rodando o filme da Cinderella. Quando chega nossa vez, somos empurrados pra um croma key e obrigados a tirar uma foto.  Somos expulsos pra uma outra sala completamente escura. Só dá pra ver uns flashes vindo de uma escultura muito realista de paparazzi fotografando a Cinderella e sua carruagem de abóbora capotada.  Se você não sacou, é uma referência à morte da Princesa Diana. Na saída, eles vendem fotos de souvenir tipo de montanha russa na Disney que eles te colocam junto com a obra da Cinderella. Muita gente tumultuando pra achar suas fotos. Rolou uma preguiça, então não fui ver a minha.

O souvenir mais massa/idiota era esse balão mas custava 5 libras.

Numa tenda de circo ficavam as coisas mais dark/freak, tipo: o unicórnio do lindo do Hirst, o mesmo cara que fez o tubarão em formol e umas louças loucas da Ronit Baranga que eu cogitei seriamente em ser presa pra poder tê-las. E também tem umas esculturas incríveis de um artista chamado Scott Hove que misturavam bolo, criaturas escabrosas e cristais.  O site dele tem muita coisa legal, vale a pena o clique!

Falando parece uma pira, mas olhando a foto você vai entender que era muito foda.

disma29

Damien Hirst

disma23

disma30

Ronit Baranga

disma27

Scott Hove

disma26

disma28

Uma das coisas que eu achei mais legais:

O trailer que gira!!
Gente, é a maior pira da vida! Entrando no trailer, somos espremidos em um banco. Um cara fala com um semblante deprimente que vamos viajar pro espaço. Já amei. Se você tiver náusea feche o olho e se vire. Na verdade você fica parado, e as coisas a sua volta giram então rola uma tontura nível hardcore, mas se você fechar o olho você percebe que está parado (eu acho). No começo rola aquele risinho de simpatia/desconforto da situação de estar ali espremido entre estranhos. Depois de umas giradas você começa a não entender mais nada que tá rolando, suas percepções ficam totalmente desequilibradas e tudo fica muito confuso. Por alguns minutos você já não sabe mais o que é o que e acaba dando muito uma sensação de estar no espaço girando mesmo. Todo mundo começa a rir muito. Quando acaba até rola um medo tipo meu deus como vou sair pro mundo real daqui? Um velho descolado que estava do meu lado e mais próximo da saída percebeu que seria o primeiro a se aventurar na realidade e fez uma carinha de “eita nois”. Olhamos todos pra ele com uma expressão facial de quem está entendendo seu drama. Nosso herói conseguiu e nos sentimos todos encorajados. Saí e pisei no chão ainda não entendendo bem o que tava acontecendo, melhor assim.

Aqui tem um povo passando meio mal no brinquedo-arte

Continuei.

Um grande cinema a céu aberto rolando um vídeo arte de um girafa pulando numa piscina.

2015-08-24 15.14.06

A música que tocava o tempo todo era muito boa. Escuta um trechinho aqui.

A encenação de tédio dos funcionários também era um ponto alto. Eu daria um Oscar pra todos.

disma7disma36

Várias esculturas legais ficavam espalhadas pelo parque, tipo essas:

disma19 disma16

disma35disma4 disma 5 2015-08-24 16.00.23disma32

Outra parte legal era uma cabine pra imitar agência de empréstimos com tema infantil cheio de posters geniais do artista Darren Cullen tipo esses:

2015-08-24 16.08.50 2015-08-24 16.09.16-1 2015-08-24 16.08.58

Entrei numa cabana cheia de posters. Cada um era um soco na cara, ou melhor, um nocaute. Muitas coisas sobre imigração e especulação imobiliária que é um assunto super sério e debatido em Londres porque chegou a um nível surreal e está expulsando muita gente da cidade.

2015-08-24 15.53.29 2015-08-24 15.54.05 2015-08-24 15.53.40

2015-08-24 15.57.12

Seria essa uma indireta pra nós brasileiros?

Por toda a exposição, Banksy, óbvio, faz mil críticas ao sistema esdrúxulo que é o capitalismo, jogando várias na nossa cara e chamando o espectador o tempo todo de burro. Eu acho esse approach maravilhoso, porque somos mesmo. Uma população que só se fode, e que não concorda mas aceita ser mandada por uma minoria só pode ser imbecil mesmo. Morar na Europa não te faz menos imbecil, não. Eu, você e todo mundo está incluído.  E não é engraçado.

Andei mais um pouco e vi um ônibus onde umas pessoas saiam chorando, naturalmente a galera ficou curiosa e formou mó fila. Várias atrações tinham filas  porque tinham um número limitado de pessoas que podiam entrar. Normal.

Lá dentro uma exposição chamada “designs cruéis”. Leia a introdução e fique bolado junto comigo (sério, vale muito a pena):

2015-08-24 15.43.46

Tradução bem lixenta pra ser usada só em caso de emergência: Essa é uma exposição de coisas que foram feitas pra te machucar. Cada uma delas controla, maltrata ou mata pessoas. Elas também são parte de uma política pautada na desigualdade e violência estrutural. Como governos e corporações tem como objetivo o lucro e a concentração de poder eles criam esses objetos para vocês. Eles falham ao reconhecer a real raíz dos problemas sociais, redefinindo-as como “medidas de segurança”. Que pode ser resolvido apenas por exclusão e encarceramento. A indústria de controle está crescendo nesses tempos de austeridade e neoliberalismo. Esses objetos são “armas menos letais”. O principio contraditório desses designs revelam a luta e os problemas sociais por trás deles. A concretização desses objetos faz com que exclusão e exploração pareçam apenas “o jeito que as coisas são”. Eles distanciam nosso senso de responsabilidade. Pessoas que criam ou compram esses objetos estão apenas “fazendo seu trabalho”. Mas esses objetos não representam uma progressão natural, eles não simplesmente apareceram ali. Eles foram feitos. E portanto podem ser desfeitos.

Exemplos desses objetos são espinhos em todos os lugares onde pombos (sim, eca) ficam mas onde de repente passarinhos lindinhos também poderiam ficar, bancos públicos desenhados pra moradores de rua não poderem dormir e câmeras de segurança.

2015-08-24 15.48.15

Mas até aí o pessoal ainda tava normal. Foi só quando espiei entre umas cabeças que em uma TV tava passando umas cenas daqueles docs de maus tratos aos animais(daqueles que organizações veganas passam), mostrando eles sendo abatidos de uma forma horrorosa e cruel. Todo mundo que já assistiu sabe do que eu to falando. Realmente, as imagens são fortes e é uma loucura pensar que aquilo existe e que nós ainda incentivamos isso com nosso dinheiro. Não tirando atenção nenhuma do assunto que é totalmente condenável e tem que acabar óbvio! Só que achei curioso que a exposição toda é uma critica a um sistema e medidas políticas que matam milhões de pessoas. Mas as pessoas choravam pelos animais.

Enfim, nos acostumamos demais com essas coisas e tantas outras e acabamos achando que é o normal. A gente não podia achar normal gente morando na rua. Toda vez que a gente vê essa situação a gente tinha que pensar: por que esse ser humano que tá na rua não pôde ter a mesma chance que eu tive de se dar bem na vida? Se você pensou: porque ele não se esforçou o suficiente, clica aqui. Sério, clica, por favor.

O negocio é que a gente se acostuma demais. Que é a genialidade do ser humano e razão maior pelo qual somos o topo da cadeia alimentar mas também uma das nossas maiores burrices.

A esse ponto eu já tinha perdido meu senso de humor. Tudo muito legal e genial, mas as coisas discutidas aqui são muito sérias e reais. Comecei a ficar puta com a galera achando graça de tirar selfie com o balão escrito eu sou um imbecil e postando no inxta. Fiquei pensando o que o Banksy pensaria se visse essa cena. Ele não é bobo, claro que sabia exatamente que isso ia acontecer. Queria saber por que ele acha que ainda vale a pena tentar fazer as pessoas acordarem desse jeito.

disma9

Passada a raiva, veio a tristeza. Porque parecia que a maioria das pessoas tava se importando mais em mostrar pros outros que estava lá do que refletir nas coisas que estavam sendo discutidas. Também porque eu já perdi a conta de quantas vezes já estive em situações que fui confrontada com esses assuntos.

disma1

dima9E eu odeio o fato de que a saúde é uma indústria, que os nossos índios continuam sendo mortos por agropecuários e madeireiros, odeio entrar no supermercado e ter 1 suco de fruta de verdade entre mil falsos e, pior, odeio que muita gente nem tenha condição de pensar nessas questões porque estão preocupados em como arranjar o que comer, onde morar, em como vão se salvar no meio do mar, tentando uma vida melhor. Odeio todas e várias outras coisas sobre a gente. Só que é sempre assim, me revolto, faço promessas pra mim mesma, mas depois esqueço, depois acostuma.

A conclusão que fica é: somos todos imbecis mesmo. A não ser que a gente resolva mudar.

disma6

Se o mundo fosse o filme “Inception”

Texto por Sophia Alziri 

Dia de tédio no Instagram, sabe como é, né? O dedo só vai… a cabeça tá sei lá onde, você nem sabe por que tá ali naquela situação. De repente, o dedo pára. Você volta pra realidade. Pera aí, isso aqui é bom pra caralho. Foi assim que achei o perfil do Décio Araújo (@dearaujo).

As fotos dele são dessas que faz você prestar atenção, olhar de novo. Arquiteto, ele brinca com a relação entre pessoas, cidades e natureza. E assim tenta provocar a gente a olhar de forma mais crítica pras cidades. Nos estimula a achar beleza no dia-a-dia de concreto. São Paulo, obviamente, é o lugar perfeito pra isso.

Usando os diferentes tons de cinza típicos de São Paulo, aquele cinza bem claro quase sempre presente no céu, o cinza médio do concreto, o cinza escuro das pistas e as cores desbotadas de uma cidade usada e reusada a exaustão. Podia ser feio, se não fosse lindo.

As cores desbotadas viram poesia, as formas, quando repetidas e desapropriadas do seu contexto real, dão vida a outras viagens visuais.

A densidade urbana vira uma textura. E vendo ela pelo olhar dele, nos esquecemos da maçante e caótica realidade que é viver numa megametrópole.

As imagens que ele cria lembram aqueles bloquinhos de madeira que a gente brincava de construir prédios e castelos quando éramos crianças, lembra disso?

Só que em vez de bloquinhos ele usa apps ( UnionAppFragmentApp, e Filterstorm) e um celular. Piramos? Claro que sim.

Além de questionar o próprio espaço urbano, ele também vem pra questionar o espaço da arte. Um artista que produz imagens tão incríveis pode ser menos artista que alguém que expõem em um espaço físico? Ou que produz imagens com cola e papel? Parece que não, já que esse ano ele foi convidado pelo Instituto Inhotim, junto com outros artistas, para um visita privada que você pode conferir na #emptyinhotim.

Ele conta que a primeira vez que expôs suas fotos foi por meio da rede social.  E só através dela sua mensagem pôde chegar ao mundo todo.

O arquiteto, que cansou de construir e achou na fotografia uma forma de desconstruir e construir outras realidades, nos faz olhar de um jeito diferente pra esses espaços e isso, provavelmente, mude um pouquinho como a gente trata esse lugares.

A verdade é que desde que o homem se tornou seu próprio deus ao devastar o natural e reconstruir todo um relevo novo baseado nas suas (des)necessidades modernas, o homem materializou sua mente em uma nova paisagem, a selva de pedra, terra de arranha-céus e tudo aquilo. É claro que hoje temos consciência de que erramos feio em destruir a natureza, mas quem pode negar a beleza do que o homem construiu depois de ver essas imagens do Décio? Vamos olhar com mais paixão pras cidades e achar, em meio ao caos da falta de planejamento urbano, a poesia e beleza desses lugares que querendo ou não, são a nossa casa.

Vamos.

Gaiola de Concreto

Gaiola de Concreto

Claustrofobia urbana

Claustrofobia urbana

Mutação Urbana II

Mutação Urbana II

Superpopulação XII

Superpopulação XII

Barreiras Urbanas

Barreiras Urbanas

Percursos Caóticos

Percursos Caóticos

Claustrofobia urbana XVIII

Claustrofobia urbana XVIII

Oscilação urbana XXIV

Oscilação urbana XXIV

Gaiola de Concreto XX

Gaiola de Concreto XX

Claustrofobia urbana
Claustrofobia urbana

Claustrofobia urbana

Gaiola de Concreto

Gaiola de Concreto

Superpopulação XVI

Superpopulação XVI

Oscilação urbana XVI

Oscilação urbana XVI

Não parta o coração dele

Texto por Marcela Picanço 

Não parta o coração dele. Se eu pudesse pedir alguma coisa, seria essa, já que não existe a opção de pedir ele de volta, tipo mercadoria online. Até porque eu nunca tive ele. Ele não é de ninguém. Ele é livre e não deixa que ninguém diga o que fazer da sua vida. Tipo um gato que  não recebe ordens, mas não dispensa um lugar pra descansar o pensamento. Ele odeia respostas prontas. Gosta de elaborar tudo, de tentar prever soluções. Você já deve ter percebido isso. Cuide dele como quem planta uma sementinha. Ele vai precisar de água e luz pra fazer com que essa relação crie laços insolúveis na rotina.
Se ele escolheu estar com você, não duvide. Ele não gastaria tempo com alguém que ele não se importa o suficiente pra deixar o futebol sábado de manhã só pra ficar mais algumas horas enrolando na cama. Mas não espere que ele faça isso sempre. Ele sabe dividir o tempo dele, então nem tente tentar dividi-lo você mesma. Quanto mais espaço  você der, mais ele chega perto. Ele gosta que você tenha seu espaço também, então não seja disponível o tempo todo. Isso é um saco pra qualquer pessoa.
Não duvide dele se não for preciso. Se te incomodar muito, pode enchê-lo de perguntas, mas pense duas vezes antes de fazer um escândalo. Ele não vai fazer nada pra te machucar. Eu demorei muito tempo pra entender isso porque sou uma boba e porque a gente leva tanta rasteira de homem que acaba desconfiando de tudo. A gente tende a não se arriscar pra não partir o coração de novo. Ele partiu meu coração, mas não fez por mal. E hoje eu entendo isso de um jeito que eu não compreendia. Antes eu achava que era descaso, que nada do que a gente viveu teve validade pra ele. É que é muito difícil aceitar uma rejeição e até hoje eu não aceitei. Tem toda essa coisa de ego e auto-estima envolvida, por isso, eu achei que não tinha sido boa o suficiente. Mas não existe ser boa o suficiente. As pessoas se apaixonam pelas espaços vazios das outras, onde elas terão chance de se inserir. Seja sempre você, com o máximo de autenticidade que puder, porque é isso que interessa pra ele. Se apaixonar mais pela pessoa que ele já se apaixonou uma vez.


Eu não falo tudo isso por você, não. Falo por ele. Porque eu não quero que ele tenha qualquer desilusão amorosa. E eu sei que ele é louco por você. Eu queria te implorar pra não decepcionar ele. E não queria que você seguisse isso tipo um código de conduta ou um “how to”, mas eu já vi você fazendo merda e eu sei que ele não sabe, porque ele acredita em você. Não estrague tudo por não ter auto-estima suficiente pra estar com um cara foda como ele é. Não estrague tudo tentando um pouco de atenção de qualquer pessoa que banalize a sua existência só pra, no fundo, chamar atenção dele.
Eu não me importo com você, e claro, você faz o que quiser, mas eu te peço, por favor, não quebre ou estraçalhe o coração dele em pedacinhos como ele fez com o meu. Antes eu não entendia, cheguei a pedir com força que ele se sofresse o dobro, mas agora que passou, eu só quero que ele fique bem. E eu não acredito que o nome disso seja amor. Amor foi o que eu senti por ele e não passou, nunca vai passar, mas se calou dentro de mim e vai ficar hibernando pra sempre. As pessoas falam de amor como se fosse algo definitivo, mas o amor não é certeza, o amor é descoberta. E ele é uma descoberta sem fim, cheio de riscos e compensações, muros e montanhas. Não estrague tudo por não ter coragem de viver esse amor. Eu vou ficar de olho em você enquanto rezo baixinho por ele.

Demônios

Texto por Letícia Manela, colunista de popoesia do De Repente dá Certo.

Existem demônios em mim.

Vermelhos, grandes e raivosos.

Demônios que atacam por dentro quando estão de mau humor.

Devastam minha cabeça e me obrigam a ser como eles,

intempestivos, ansiosos, surtados, raivosos e espumantes.

Demônios que me fazem bater e ferir, agredir com palavras;

que me fazem sentir pequena, insegura e chorosa.

Demônios que me confundem e deixam tudo de cabeça pro ar.

O bom, o certo, o ruim, o errado, todos eles viram personagens discutindo dentro de mim, gritando cada vez mais alto pra ver quem tem razão, mas nenhum deles tem, afinal nenhum existe.

E todos os momentos presentes garantidos com o suor da tentativa lúcida, meditações, é simplesmente calado, já que os demônios berram, falam mais alto.

Eles trazem o pior de mim, nada que preste, que ajude ou console.

Eles são apenas neurose, distrações pra felicidade, pro presente.

Não quero por perto, não quero ser louca.

Eu vou conseguir ignorá-los de vez, finalmente em algum momento não vou ouvi-los mais, ou melhor, vou ouvir muito de longe, sem dar bola, como se fossem pequenas minhoquinhas alucinadas tentando garantir minha atenção, mas eu não vou estar nem aí. Não vou querer saber por que eles existem, por que é comigo, se os outros também tem. Não vou querer saber de ninguém, porque não importa. Os demônios só existem se eu olho e dou ouvidos pra eles, até eles perderem a graça. Na verdade não graça nenhuma o que eles dizem, mas as vezes eu vou na onda, eu esqueço que eles não falam nada que preste, pelo contrário, então não tem porque ouvir.

Eles aparecem… cada vez mais… espaçadamente. Sorrateira mas violentamente. Mas eu vou ganhar deles. Eu vou simplesmente educar o resto do meu corpo a ignorar esses monstrinhos safados e inúteis.