O tal João de Santo Cristo e uma estrela cadente

A gente se conheceu nos anos 80, numa tarde cinzenta e quente. Eu vestia uma blusa do Iron Maiden, que eu roubei do meu irmão, e uma calça jeans rasgada. Eu já tinha te visto umas duas vezes na vida e eu sabia quem você era porque todas as meninas da cidade eram loucas por você. Mas você me chamou atenção porque das duas vezes que eu te encontrei, você não conseguia não olhar pra mim.

Nessa quarta-feira cinzenta, você me olhou de novo com aquele olhar de quem não quer disfarçar. Você usava um Ray-Ban preto, mas eu sabia exatamente a linha que os seus olhos faziam e chegavam até mim. Eu estava sozinha, sentada na calçada de concreto, esperando quando nos chamariam para os preparativos de maquiagem e figurino. Passamos a tarde nos arrumando e nos esbarrando entre olhadas rápidas entre um café e outro. Te vestiram de punk, pintaram seus olhos e rasgaram sua blusa. Eu usava um batom roxo e aumentaram o volume do meu cabelo de um jeito que eu nem imaginava que era possível. Achei que eu parecia um vampiro, mas gostei do que vi no espelho.

Depois de tanta espera, vi você sozinho tomando um café naqueles copos de plástico, enquanto eu comia uma maçã e me aproximava de você, fingindo estar louca por café também. Puxei o assunto mais óbvio e falei que o seu cabelo de punk tinha ficado incrível e que eu queria ter sido fantasiada de punk também. Você falou que eu não poderia ficar com cabelo de punk, porque meu cabelo era igual o da Janis Joplin e eu jamais poderia cortá-lo. Agradeci e falei que achei que fosse um elogio. Ele sorriu, tomou um gole de café e confirmou. Com certeza é um elogio.

Estávamos esperando o suposto show do “Aborto Elétrico” começar, em silencio, entre luzes, rebatedores, fios e câmeras. Várias pessoas com figurinos dos anos 80, dançando sem música em uma boate de rock cheia de posters de banda na parede e vozes gritando “Silêncio”, “Gravando”, enquanto todos esperavam a fala da adorada Isis Valverde e ficavam curiosos para saber quem era o tal do João de Santo Cristo. A gente dançou em silêncio, tentando não fazer barulho com os pés e riu muito.

Quanto tudo acabou e a gente não aguentava mais ouvi “Moramos na cidade”, devolvemos o figurino, agradecemos e fomos andando sozinhos de volta até o ponto de ônibus mais próximo. O sol já começava a nascer e o céu estava com aquela mistura de azul com rosa, que só Brasília pode nos proporcionar. Ele me olhou, falou que sabia que a gente se conheceria em algum momento e a gente se beijou. Eu fiquei na dúvida se aquele filme era nosso, se falariam “Corta” no minuto seguinte, mas não aconteceu nada.

Ele me olhou de novo e disse que sabia que eu ainda ia brilhar muito na vida. Ficou vidrado em mim, por alguns segundos, e disse que eu era a pessoa mais bonita que ele já tinha conhecido, mas isso não queria dizer nada. Então foi cada um pro seu lado e eu voltei pra casa com o sol nascendo em mim. Pensei que ele deveria ser algum tipo de estrela cadente.

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