O espantalho de Tchekhov em mim

“Fugir da música, da cozinha, do dinheiro da minha mulher, de todas estas ninharias, de todas estas baixezas… E parar num campo, em qualquer parte, longe, muito longe!… E debaixo de um céu imenso ser como uma árvore, uma vara…, ser como um espantalho de pardais…, e ver, toda a noite, por cima de mim, a lua tranquila e clara… E esquecer, esquecer, esquecer…” da peça “Os Malefícios dos Tabaco” de Anton Tchekhov.

Hoje eu queria ser um espantalho. Igual a esse do Tchekhov. Queria que me perdessem por aí e que me deixassem olhando a imensidão de céu. Que de lá desse para ter uma ideia do tamanho do mundo. Queria ficar parada, esperando os passarinhos. Queria fugir dos meus próprios pensamentos. E sendo um espantalho eu não ia sentir quando eles partissem. Eu não ia sentir frio quando a noite chegasse. Meu coração não bateria mais forte. Eu não teria noção de distancia. Eu estaria sempre ali, esperando alguma coisa e não sentindo nada. Eu veria o sol nascendo e saberia por que minha roupa preta xadrez começaria a parecer vermelha azul e amarela. O escuro às vezes confunde. A gente pensa que é uma coisa e é outra. Mas se eu fosse um espantalho eu não ia me confundir. Eu ia só pensar que minha roupa é de uma cor de noite e de dia é outra.

A vida podia ser mais simples, mas a gente procura uma explicação pra tudo. Seria mais fácil se a gente pensasse em uma coisa e fosse. E eu cansei de inventar. Eu cansei de olhar para o futuro e ficar com os olhos ardendo de tão brilhante e invisível que ele é. E hoje eu queria saber o que não é sentir saudade. Queria ter a certeza de que todas as pessoas que já foram, iam voltar no outro dia, que nem o sol. E eu teria a companhia eterna de mim. Eu queria me esquecer de tudo. Queria por um dia me esquecer de tudo que já passou. Queria ficar olhando a lua e o céu azul sem entender o que é aquilo e sem entender de onde vem tanta beleza. Eu queria olhar pra tudo de novo e me perguntar por que eu nunca vi nada antes.

Eu cansei de começar de novo e falhar. Hoje eu queria acertar. A partir de hoje eu queria ver a vida assim, como se eu nunca tivesse visto o mundo. Por isso eu queria ser um espantalho por hoje. Mas é tanta vida pulsando aqui dentro que eu nunca conseguiria ficar parada em um mesmo lugar. Se eu fosse um espantalho eu ia criar vida. Eu ia rasgar a minha roupa e sair correndo, pedindo para que o mundo me acolhesse.

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