De papo com Ilona Szabó

Eu poderia começar esse texto dizendo que a Ilona é coordenadora da Comissão Global de Política sobre Drogas e Democracia , uma das criadoras da Rede Pense Livre e diretora e fundadora do Instituto Igarapé, que se dedica a combater a violência e promover uma política de drogas decente aqui no hemisfério Sul. Mas a verdade é que essa mulher que passa os dias ocupada, não apenas pensando, mas colocando a mão na massa para melhorar a condição de vida das pessoas, tem uma história de muita determinação para chegar até aqui. Não teria como ela ter escolhido outro caminho. Desde cedo ela sabia que algo estava muito errado em relação à disparidade das classes sociais.

Cheguei pra entrevistar a Ilona e me deparei com uma mulher linda, com ar saudável e brilho nos olhos. Ela tinha acabado de chegar de um almoço de negócios e me pediu desculpas pelo atraso. Foi extremamente simpática e já pegou uma caixa de chocolate pra gente comer durante a entrevista. Sentamos em uma sala giganteee do Instituto Iguarapé e começamos um papo que, por mim, teria durado mais umas 3 horas.

Ela começou me contando que saiu cedo da casa dos pais e foi fazer intercâmbio, com 17 anos, na Letônia, um País que ninguém conhecia muito bem e estava em processo de crescimento. Ou seja, seria uma experiência diferente dos seus colegas de escola. Ela resolveu ir mesmo assim. Já sabia inglês e queria conhecer novas culturas. Morou com uma mulher solteira e passou um período tomando banho gelado, mesmo no inverno, porque na sua casa não tinha água quente.

Os pais da Ilona sempre a incentivaram a vencer os desafios. Ela passou por alguns perrengues, mas estava feliz, estava bem. Eles podiam ter falado pra ela voltar para o conforto do lar, mas ambos sabiam que essa experiência seria importante. O mundo se abriu, porque em Nova Friburgo, onde morava, ela disse que parecia viver dentro de uma bolha. Conviveu com pessoas de várias culturas diferentes, com vidas diferentes. Todos eram amigos dela, que sempre teve um ótimo dom para se relacionar e ouvir o outro. Esse dom fez com que a primeira ideia de profissão da Ilona fosse psicologia, porque ela sempre foi conselheira dos amigos.

Por conhecer tanta gente diferente dela, por ser aberta para novas ideias e com a sua vontade de mudar o mundo, o resultado não podia ter sido diferente.

Ilona voltou para o Brasil com o coração inquieto e a cabeça cheia de ideias. Saiu da casa dos pais, foi morar no Rio e começou a trabalhar em um banco de investimento, o que possibilitou que ela pagasse a faculdade e seus custos na Cidade Maravilhosa. Mas, para ela, de maravilhosa essa cidade não tinha nada, já que a disparidade entre as classes sociais é enorme e está escancarada na nossa frente, mas todo mundo faz vista grossa.

“Minha preocupação no Rio sempre foi que a gente vive em um laboratório a céu aberto. Você olha para qualquer lugar e vê a desigualdade. E eu me sentia mal de estar lá trabalhando num banco e sem fazer nada a respeito dessa situação. Me incomodava muito isso e acho que que quem tem esse incômodo, não tem muita escolha. Vai acabar querendo mudar”, conta Ilona.

Então ela resolveu sair do Brasil por um tempo, dar uma reciclada no currículo e fazer um mestrado. Mas quando voltasse para cá, já queria ter algo certo para trabalhar.

Saiu uma matéria no jornal de um antropólogo inglês que tinha vindo para o Brasil fazer uma pesquisa sobre a semelhança entre crianças soldados e crianças usadas para o tráfico de drogas. “Nesse dia, pensei, vou trabalhar com esse cara”, mas ela não conhecia ele, então foi atrás de uma lista de contatos que poderiam conhecer ele e conseguiu, de uma forma muito louca, encontrar um jeito de ir numa festa onde ele estaria (detalhe: nessa época não tinha Facebook!).

Ela conseguiu conversar com o cara e explicou pra ele que estava indo para Suécia, porque tinha acabado de conseguir uma bolsa de mestrado para fazer o estudo de conflito e paz. Então ela disse pra ele “Quando eu voltar, quero trabalhar com você. Porque achei o link do que eu quero fazer com a vontade de ajudar o meu país com o seu trabalho”. Hoje, esse antropólogo chamado Luke Dowdney tem um projeto bem legal chamado Luta pela Paz, que atua no Rio e em Londres.

A causa que ela escolheu trabalhar desde então foi a diminuição da violência, homicídios no Brasil e tudo que está ligado a isso. Assim que ela voltou, cumpriu sua promessa de trabalhar com o gringo Luke Dowdney. Trabalhou com ele na organização durante 5 anos e conheceu vários temas. De um dia pro outro, ela foi chamada para coordenar a campanha de recolhimento de armas pela organização Viva Rio. Depois de 2 anos trabalhando no projeto, conseguiu a aprovação da lei que restringe o porte de armas para civis no Brasil.

Ela aprendeu muito sobre política com esse projeto. Já que ela tinha uma experiência com mercado financeiro, foi ótimo entender como funciona o outro poder da sociedade. “Com isso, aprendi que pra fazer qualquer mudança na sociedade, essa engrenagem precisa estar girando, ou seja, esses poderes devem estar agindo juntos: governo, mercado financeiro e sociedade civil”, conclui.

Em 2011 ela fundou o Igarapé (o nome vem de conexões), já que ela e várias pessoas com que ela trabalhava, resolveram empreender. O foco do instituto é integração dos temas de segurança e desenvolvimento, porque, como ela mesma disse, se não existir integração nesses temas, nada se resolve. É preciso trabalhar armas, polícia, drogas, cultura, juventude… Não adianta pegar um deles de cada vez. Portanto, o Igarapé surgiu para ser uma ponte entre setores, já que todos eles precisam estar conectados para que algo realmente mude. A ideia do Igarapé é colocar todas essas questões na mesa.

“Às vezes o debate está totalmente emperrado no Congresso Nacional, mas, através de organizações como aONU, eu consigo destravar o processo. Consigo mandar recado de um lado para o outro. Então a gente está sempre operando em multiníveis, o que é um trabalho tenso, mas é só assim que se consegue fazer uma mudança sistêmica”, explica Ilona.

Além de fazer tudo isso, Ilona é a roteirista e principal pesquisadora do documentário Quebrando o Tabu, que fez o maior sucesso aqui no Brasil e no mundo. O filme é conduzido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, adepto à descriminalização da maconha. O documentário explica como a política anti-drogas gera a maior parte da violência sofrida aqui no Brasil; e vale muito a pena assistir para entender o tamanho do problema. Ilona trabalha principalmente em cima dessa agenda de descriminalização das drogas, para que uma política seja implantada e melhore a vida de todo mundo. No Brasil, ela é um dos pulsos mais fortes para a legalização das drogas e eu estou na torcida para que alguma coisa, de fato, mude.

Ilona é uma mulher muito corajosa, forte e determinada. O trabalho que ela faz é incrível, mas ao mesmo tempo muito difícil, porque é nadar contra a corrente, é tentar convencer pessoas completamente diferentes, de vários setores e que, muitas vezes, têm ideias completamente opostas às dela. Mas ela acredita que só assim que uma grande mudança pode ser feita: com diversidade e debate.

Saí de lá ainda cheia de perguntas na cabeça, querendo entender tim tim por tim tim sobre o nosso sistema, mas cheguei à conclusão de que isso é assunto pra outro texto. Esse é pra falar da Ilona e da diferença que ela está fazendo no mundo.

Você também encontra meu texto na NOO!

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