São Paulo vive loucamente

Texto de Sophia Alziri, nova colunista do De Repente dá certo.

Há alguns anos eu me preparava pra enfrentar São Paulo, a cidade que me prometia tudo. O que sempre me diziam era como ela era violenta/ assustadora/ cinza/ individualista/ suja/ com trânsito/ difícil. E como eu tinha que tomar cuidado, muuuuito cuidado. E sim, ela tem milhões de defeitos, mas, hoje, quando olho pra trás, só consigo ver como essa cidade rabiscada me ensinou.

São Paulo não te deixa sossegado. Ela não te deixa estagnar. Ela te obriga a repensar na vida o tempo todo. Ela mesma muda o tempo todo, sem olhar pra trás, não faz questão de preservar seu passado. Quase sem ligar pro que já foi. Transforma suas ruas burocráticas do centro em festas pra todos. Aceita ser ocupada.

Por Sophia Alziri

Por Sophia Alziri

Cada um tem sua São Paulo. Ela é diferente pra cada pessoa. E cada pessoa também pode ser alguém diferente em cada grupo que frequenta, porque na maioria das vezes eles nunca vão se conhecer.

São Paulo vive loucamente. E a gente também deveria. Não caia na mesmice do copo de requeijão! Vai tomar seu café da manhã numa taça com canudinho de sombrinha tropical. A rotina é muito necessária, mas não deixa ela ser mais bosta do que ela já é. Sempre quis ir naquele lugar mas ninguém nunca quer ir com você? Vai sozinho! Às vezes, você vai perceber que quando tá sozinho presta mais atenção nas coisas a sua volta. Pode ser que você perceba que quando o vento bate no seu cabelo e te dá uma sensação legal ele também faz a árvore se mexer, o papel que tava no chão voar e de repente tudo a sua volta mudou de lugar e você acabou de viver o presente. Pode ser também que seja uma merda e você vá embora rindo da sua própria cara.

Tem dias que tudo é normal, mas tem dias que te levam, te colocam em outras situações onde rolam aqueles breves momentos em que você sente aquele sentimento inexplicável de puta-que-pariu estou vivo! Às vezes você vai sentir isso enquanto se arrasta no chão com mais 20 pessoas ao som de “Drunk in Love” numa tarde de sábado (Alô, Club workout, foi demais!), às vezes pode ser quando você termina a noite comendo coxinha do boteco.

São Paulo é nada a ver. Talvez um cara caia do telhado no meio de um show, talvez você vá comprar biscoito no mercado e acabe andando de skate no minhocão fantasiado de rato. Seilá. Talvez você encontre alguém que mude o seu jeito de ver o mundo, mas é mais provável que você encontre várias pessoas que façam isso. Às vezes tudo vai fazer muito sentido, às vezes não vai fazer nenhum. E tudo bem. A verdade é que tudo isso poderia ter acontecido em qualquer outro lugar, mas eu ainda acho que São Paulo tem os melhores cenários, a melhor iluminação.

São Paulo é infinita. Cada porta é um universo em potencial. Você nunca sabe se vai encontrar um prédio abandonado tomado por artistas, uma festa num terraço com a vista mais foda da imensidão de luzinhas que é a cidade à noite. Ou pessoas dançando carimbó numa quarta-feira, duas pessoas de óculos escuros tomando vinho em um copo de abacaxi numa cozinha iluminada com luzes de festa e adorando o Youtube como um grande oráculo pra vida e pra vibe. Um italiano palestrando sobre como os robôs vão dominar o mundo e pode ser que seja irado, pessoas de boa assistindo todas os episódios de Um Maluco no Pedaço, uma praça cheia de gente dançando axé dos anos 90 como se não houvesse amanhã no mesmo momento em que MILHÕES (talvez bilhões) estão na paulista pedindo impeachment da presidente. Uma roda de samba dentro da sala de uma mãe baiana no Morumbi, uma festa onde árvores são pessoas e todos falam francês, um caminhão tombado dentro de um prédio, um casal que se conheceu no Tinder brigando por causa da Taylor Swift ou o Roberto Carlos japonês cantando em algum lugar da Liberdade cheio de gente louca pra criar um grupo do Karaokê no WhatsApp. E, às vezes, você pode descobrir o que se passa por trás dessas portas se parar para assistir às janelas dos prédios no minhocão, vendo as pessoas tendo uma vida normal ou ficar se perguntando por que a luz daquele apartamento é azul ou por que tem um fantoche gigante na sala de alguém.

Sophia andando de skate no minhocão

Skate no minhocão

O nome disso tudo é experiência, e um cara muito foda chamado Erik Davis definiu como: “That evanescent flux of sensations and perceptions that is, in some sense, all we have and all we are.” (Esse fluxo evanescente de sensações e percepções que são, em algum sentido, tudo o que temos e tudo que somos).

E foi isso que São Paulo me deu: a mais vasta lista de experiências que fizeram meu dia ou acabaram com meu dia, mas que me fizeram aprender sobre a vida. Sempre. Todo dia. E, no final das contas, as minhas experiências são as coisa mais importante que eu tenho. Queria agradecer todo mundo que fez parte dessa odisséia cinza, psicodélica e repleta de vibe que foram esses 5 anos. Vocês são foda!

Pra resumir, se São Paulo fosse um cara seria o amor da minha vida.

Por Sophia Alziri

Por Sophia Alziri

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