Túnel do tempo

Texto por Marcela Picanço

Era uma manhã como outra qualquer. Nada de especial havia acontecido, ele não estava triste, nem muito animado, apenas com os olhos baixos ainda de sono. 7 horas. Olhou o relógio e não pensou nada, apenas que teria levantar. Tomou banho, colocou uma roupa e tomou o café que já estava pronto em cima da mesa. Entrou no carro, ligou o rádio e se preparou para o trânsito que iria enfrentar. Começou a pensar o que faria no fim de semana. Era um sujeito louco como todas as outras pessoas. Não se achava normal e gostava de ser assim. Gostava do trabalho que fazia, mas não achava extraordinário. Tinha preguiça de sair para trabalhar, como a maioria dos mortais. Tinha uma namorada. Do tipo que gostava de prender o cabelo de lado e roer as unhas. Ele era apaixonado por dela. Às vezes chegava a pensar em casamento. Outras vezes achava a ideia absurda.

Pensou nas contas que precisava pagar. Luz, gás… droga, o condomínio. Foi dirigindo e quando chegou no Leblon percebeu que o transito estava mais tranquilo do que o normal. Trabalhava na Barra e teria que atravessar aquele túnel enorme, que parece não acabar nunca. Ele não gostava de passar por aquele túnel quando o trânsito estava parado. Tinha a sensação de que nunca sairia de lá. Não chegava a ser claustrofobia, mas não gostava. Hoje ele não ficaria preso no transito.

Entrou no túnel e viu a gávea ficando para trás. Eu gosto de ver a estrada indo embora atrás de mim. Eu me lembro das viagens de carro que eu fazia com meu pai, quando eu era menor. Ia olhando para trás e vendo aquele caminho ficando para trás, aquela passagem de tempo, aquele rastro de vida. Não voltaria nunca. Só ia, ia, ia.

Ele foi seguindo, até que não se via mais a luz do dia atrás e nem na frente. O túnel é comprido o suficiente para acharmos que ele não acabará nunca. É entediante andar, andar e ver sempre a mesma coisa. Carros e mais carros e paredes de pedra e luzes. Ele foi dirigindo e dirigindo. Não sentia mais a sensação de que o túnel não acabaria nunca, pois já passara tantas vezes ali que sabia mais ou menos a hora que ele acabava. Então continuou seguindo, com pensamentos aleatórios passando por sua cabeça. Pensou na Letícia, sua namorada, queria levar ela para jantar em um lugar legal hoje à noite. Tinha tempo que eles não saiam para jantar em um lugar legal. Pensou nas coisas que teria que resolver hoje no trabalho. Talvez não desse tempo de sair pra jantar hoje, mas amanhã dá. É, amanhã dá. Amanhã é sexta.

O caminho então foi se alongando, alongando, alongando….

Nunca demorou tanto para sair daquele túnel. E ele continuou seguindo e seguindo. Começou a achar estranho demais. Mas era só impressão. É que hoje ele estava mais, digamos, distraído. Ainda via alguns carros vindo e indo. Sentiu uma coisa estranha, no peito. Uma falta de ar, digamos. Não era dor, mas sentiu uma pressão enorme nos ouvidos. Muito esquisito. Continuou dirigindo e dirigindo e dirigindo e dirigindo. Não ia acabar nunca. Bateu a primeira pontada de desespero. Aquele que aperta a boca do estomago, como se fosse um susto. Riu. Não pode ser. Riu de novo, segurou o volante com mais força. Acelerou. Mas, como? Olhou o relógio. Não sabia a hora exata que tinha entrado no túnel para ver quanto tempo estava lá dentro. Ainda não estava totalmente atrasado para o trabalho. Olhou de novo.7h 37. Os ponteiros estavam parados, mudos. O relógio parou. Era só o que faltava. O som parou de chiar, mas ele nem tinha percebido. Continuou dirigindo. Sentiu vontade de chorar. O fluxo de carros ia diminuindo. Ele dirigia e olhava o relógio e olhava para o caminho sem fim na sua frente. Tirou o relógio, passou a mão pelo cabelo. Começava a suar. Pés, mãos, testa e nuca. Que porra é essa? É sonho, é só um sonho. Pesadelo. Socorro! Ele queria acordar, mas ele não podia acordar mais. Como seria acordar da própria vida? Será que a vida toda era só um sonho? Um delírio?

Continuou dirigindo. Não havia mais nenhum carro na pista. Será que deveria descer ou continuar dirigindo? E se ele descer e vier um carro atrás? E se ele morresse? Esse não é o tipo de brincadeira que se faz. Mas não era brincadeira. Era real. Começou a chorar e a suar e a tremer por todos os poros. Respirou fundo, acelerou. Quero morrer, ele pensou. Chorou mais. Queria falar com todos seus amigos e familiares que os amava demais. Pensou no Cláudio e no José. Pensou na tia Jurema e no seu pai e na sua mãe. Pensou em Letícia. Queria todo mundo ali com ele, para o ajudarem a atravessar o túnel. Pensou em deus. Deus, uma bobagem. Nunca acreditou nisso. Pela primeira vez, tentou falar com deus. Deus, me tira daqui. Nenhuma resposta. DEEEEEEEEEEEEEEEUUUUUUUUSSS! Em prantos, chamava deus. Nenhuma resposta. Parou o carro. Abriu a porta e vomitou todo o seu café da manhã. Seu corpo inteiro tremia. Silêncio. Enlouqueci, ele pensou. Será que estou no hospício? Qual seria uma loucura maior que a própria vida. Deitou no chão e esperou a morte chegar. Queria ter feito mais coisas. Queria ter ajudado mais gente. Nunca terminou seu projeto. Nunca terminou seu livro. Ele falava que faltava inspiração. Não queria morrer assim. Será que ele ia morrer ali? De fome, de frio? Será que alguém o resgataria? Mas onde ele estava afinal? Sabia, bem no fundo, aquilo que ele sempre teve medo de afirmar. Aquilo que sempre tratou com naturalidade, mas que no fundo o apavorava.

Eu não sei o final dessa história e quando eu souber talvez não dê tempo de contá-la. A morte. A morte que chega sem dar aviso prévio. A morte que está impregnada no futuro de todos nós. A morte que nos pega de surpresa numa quinta-feira de manhã. A morte que chega para todos nós. A morte que chamamos de fim, mas que talvez seja apenas um recomeço. A morte que faz parte de um ciclo natural. A morte que tratamos como tragédia, porque achamos que somos imortais. A morte que só se chama morte porque achamos que ela é o contrário da vida, mas a vida não tem contrários. A carne podre tem cheiro de morte. A carne podre que nos transformamos. A morte é tão óbvia que é preciso inventar significados para ela. A morte é como uma música que para de tocar, mas que ainda fica ressoando em nossos ouvidos. Ele sabia que tinha morrido, mas não sabia exatamente em que momento. Talvez quando se lembrou de deus. Deus, o narrador da nossa história. Aquele que escreve certo por linhas tortas. Mas talvez ele só escreva errado mesmo. Ou talvez ele não escreva nada. Talvez ele seja tão relativo quanto o tempo. Talvez ele seja o tempo. O tempo das coisas é indefinível, indecifrável, inconstante.

Deu no noticiário hoje: Homem morre em acidente de carro no túnel Zuzu Angel, às 7h37 de uma quinta-feira comum.

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