Como sobreviver a um incêndio

Texto por Natália Moreira, nova colunista do De Repente dá Certo. 

LAURENT CHEHERE PHOTOGRAPHY

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Há algum tempo atrás meu quarto pegou fogo. No meio da noite, no meio do nada. Acordei assustada coberta por fumaça e fuligem. Meus olhos ardiam tanto que só pensei em sair correndo dali o mais rápido possível.

Não aconteceu nada de inédito depois desse fato, as mangueiras chegaram e pouco a pouco apagaram tudo. Eu respirei fundo e agradeci por não ter sido incinerada. Três minutos depois comecei a xingar sem parar. Quando entrei de novo em casa ela já não era a mesma. Andando devagarzinho até meu quarto via as cinzas do que sobrou voando à altura dos meus olhos, pousando na minha camiseta e em meus cabelos. Parecia um filme de ficção científica do apocalipse.

Destruição quase total.

Destruição quase total. Tudo passou a ter cheiro de fogo, as paredes brancas, os lençóis sobre a cama, a cortina, que passou a viver sempre aberta com os ventos da janela tentando expulsar o odor. Até hoje não sei o número de coisas que perdi naquele dia. Vestidos que gostava, livros que lia… Parecia ter perdido parte de mim, algo irrecuperável.

Hoje, anos depois que o cheiro do fogo se foi, lembrei sem querer desse episódio. Não li nenhuma notícia relacionada a incêndios ou vi na TV algo que pudesse me remeter a isso, mas acordei queimando, por dentro dessa vez.

Durante a passagem da minha vida descobri que só duas coisas podem nos queimar internamente: azia e amor. Azia, considerando os outros concorrentes, é o incêndio mais benéfico que podemos passar. O estômago ardeu, você corre na farmácia e, depois de tomar um pó efervescente com gosto de limão misturado à agua, a dor passa. Simples, eficaz e rápido.

Já com um incêndio externo, é compreensível um pânico maior. Pô, imagina ver todas as suas coisas resumidas a pó, complicado. Só que depois que a água apaga tudo e o tempo passa, você percebe que só perdeu coisas, objetos que não significam nada, dá pra comprar tudo de volta. Alívio.

Agora, de todos os incêndios pelos quais passei, nenhum nunca me destruiu tanto quanto o amor. Todo mundo diz por aí que o amor é lindo, mas que se não estiver fazendo bem, não é amor e você deve seguir em frente sem olhar para trás. Um discurso perfeito e inquestionável teoricamente, mas falho, pois amar dificilmente é uma escolha e amar errado, mesmo fazendo mal, nem sempre é opção.

Eu já sobrevivi a dois incêndios, um externo, apagado à água, e, um interno, apagado com remédio. Mas acho que nunca sobrevivi às queimaduras dos meus amores. Não por não querer ou não tentar. Pelo contrário, desde a primeira vez que amei, quando a euforia se transformou em dor, investiguei várias soluções para ver como fugir das chamas.

várias soluções para ver como fugir das chamas. Tentei mudar meu estilo de vida e os lugares que eu ia, procurava desesperadamente alguém que pudesse apagar o fogo e soprar qualquer sentimento que se encontrasse ali. Saía mais com os amigos, cortava o cabelo, caminhava na praia, fazia yoga… As tentativas foram muitas, até um dia em que percebi que nada estava funcionando e parei. E me pergunto, mas como? Me esforço tanto para apagar as chamas, o amor, as memórias… Onde estou errando?

Nessa manhã acordei mais uma vez sentindo esse amor que atualmente só queima, bota fogo e não incrementa nada. Aí lembrei das paredes… Pensei no tempo que demorou para que cheiro de queimado saísse delas, mesmo depois de lavar, jogar Bom Ar e abrir as janelas. Me acalmei depois disso.

disso. Agora, mesmo sabendo que não sou (ainda) uma sobrevivente do amor, que de vez em quando vejo pequenas manchas do fogo nas minhas paredes brancas, sei que aos poucos, abrindo minhas janelas e bebendo água pra esfriar as ardências, só restarão marcas das queimaduras que o fogo que passou deixou ali.

Quando esse dia chegar, abrirei um curso gratuito de sobrevivência para todos que estiverem em chamas a ponto de explodir. Eu, que estou a um passo de me tornar bombeira reconstruir do fogo, tudo outra vez.

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