TPM – A Ensandecida Agonia

Texto por Simone Mello

Eu quero explodir, eu quero miar, eu quero cair em prantos nos braços de alguém. Eu quero mastigar minhas aflições, com o ímpeto de quem tem 32 caninos na boca, e cuspir todas elas, trituradas, bem na cara do primeiro que topar comigo. Eu quero desmaiar em qualquer chão, me fazer pisada e me fingir de morta, sem que ninguém junte os meus pedaços. Eu quero ficar em paz, mas eu quero fazer guerra, e quero ser esquecida. Quero derreter e só me solidificar daqui a quatro dias. Se eu pudesse dar vazão à décima parte do que eu quero, talvez eu sentisse algum alívio. Mas eu só posso comer chocolate, e olhe lá.
Essa enxaqueca que quase me cega não vai me impedir de reunir algumas palavras em torno de um tema que me sabota mês a mês – eu quero odiar sem culpa, e quero falar sobre a TPM. Eu posso ser equilibrada quando os meus hormônios estão em ordem, mas não, por favor, não exija que eu faça milagre nesses dias infernais. Sabe por que?
Eu vou te explicar por que. Porque há queda de estrogênio no meu organismo durante esses dias sombrios; e sabe quem assume o comando? Cortisol e adrenalina, os vilões malditos que são os maiores facilitadores às condições de ansiedade, irritabilidade e insônia. Isso, amigo, eu também não consigo dormir, como se todo o resto fosse pouco.

Meu teclado está aqui apanhando enquanto eu digito esse desabafo explicativo (se você ainda não percebeu, é disso que se trata o texto). Meus dedos tem o peso da raiva, mas sabe o que pesa também? Meus seios, minhas pernas, meus pés. Sim, parceiro, eu retenho líquido durante este período. Eu não me acho gorda, eu estou gorda! Pior que isso, eu estou inchada, e tudo dói. Agora pare de sentir pena do meu teclado e comece a sentir respeito por mim. Sabe por que? Porque eu não explodo, nem mio, e raramente caio em prantos. Ao invés disso, eu tento ser o mais razoável possível, e quando noto que estou, assim, chatinha, eu sinto culpa, e tento me retratar.

Falando em alterações hormonais, sabe quem desaparece daqui (além de você!) quando eu estou na TPM? A serotonina. Pois é, é ela que nos faz felizes, então quando ela some, sabe o que eu sinto? Tristeza, raiva, desânimo, depressão. Minha autoestima despenca, e por isso não tente elogiar qualquer aspecto do meu corpo, porque não vai colar. Eu sei que estou feia, e se você disser o contrário, eu vou chorar, porque sei que suas intenções são boas, mas motivadas pela pena.

Eu estou feia, gorda, dolorida, irritada, triste, e não tenho 32 caninos para trucidar ninguém. Mas não se assuste, eu não trucidaria, nem que tivesse as garras de um felino, o veneno de uma víbora, a mordedura de um pit bull. Eu só queria mesmo poder chorar à vontade, sem passar por louca, sem te causar incômodo, sem ser tomada pela culpa. Eu queria não ter que me desculpar o tempo todo pelo meu grau desajustado de irritabilidade, já que tudo aqui dentro está em desajuste, e isso você poderia entender, já que leituras técnicas e relatos médicos estão aí a um Google de distância.

Eu ainda quero xingar alguém, eu quero dormir durante 72 horas seguidas, e comer um pé de cacau, mas isso é bem menos que cuspir minhas aflições na sua cara. A escrita novamente veio em meu socorro e me salvou de um colapso – eu me sinto mais leve (fora pés, pernas e seios). Eu prometo que não vou promover a terceira guerra mundial, nem vou derrubar a estante de livros em cima de sua coleção de insetos em resina (embora isto seja tentador), e em troca, eu não vou pedir compaixão, mas respeito. Respeite a minha condição biológica, que é instável, mas é natural. É ela que possibilita a perpetuação da nossa espécie, é esse ciclo intenso que permite que você tenha filhos, aliás foi ele que permitiu que você estivesse aqui. Há um tsunami de hormônios dentro de mim neste momento, então não espere que eu seja razoável, embora na maioria das vezes eu consiga ser. Beije-me se eu quiser ser beijada, mantenha distância se eu assim preferir. Lembre-se que nos outros vinte e cinco dias, eu sou seu porto seguro, eu te amparo quando você cai, eu te compreendo, e, principalmente e acima de tudo, eu te respeito.

Via: In Paradise

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1 comentário

  1. Obrigado… Suas palavras neste texto me trazem um melhor entendimento sobre o estado de minha esposa durante o período de TPM. Agora inclusive me sinto culpado por ter ser impaciente, intolerante e cobrar até mesmo o motivo de seu choro. Lendo seu texto, noto que me falta sensibilidade e paciência, pois mesmo sem compreender o que se passa com vocês mulheres durante este período, ainda me resta a opção mais sensata e bem aceita que é RESPEITAR. por mais textos como o seu! meus parabéns! 🙂

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