Meu nome é vida, olha pra mim

Texto por Simone Mello

Oi, meu nome é vida, tudo bem? Sabe quando a gente quase sufoca por guardar umas verdades que deveriam ser ditas, mas que ao invés disso engolimos para poupar transtornos? Eu estou sufocada, não aguento mais, vou ter que te dizer. Eu esperei por você em alguns momentos em que preferiu me ignorar e me deixar plantada esperando, e isso quase me fez perder a fé em você. Lembro uma vez, você tinha apenas treze anos, e não tinha programa melhor, eu tinha certeza que você ia me encontrar, naquela festinha de aniversário de sua melhor amiga do colégio. Eu estava lá, te esperando, mas você não apareceu. Não era só eu que estava te esperando – tinha o Fábio, o Bruno, as músicas e as luzes, tudo perfeito esperando por você, e fiquei sabendo que você ficou vendo TV em casa. Que mancada!

Teve a outra vez, com a galera da faculdade, naquele feriadão em que as pessoas mais legais resolveram passar quatro dias na praia. Você foi convidada! Porque não apareceu? Eu tentei te desculpar, achando que você estava sem dinheiro, ou que no fundo você tinha um convite ainda melhor, achei que você finalmente me surpreenderia, e que nós íamos acabar nos encontrando em outro lugar, talvez até outra praia! Mas não, fiquei sabendo que você não foi porque estava com vergonha de pôr um biquíni na frente da galera. Você realmente achou que estava gorda? Que tinha celulites e estrias demais para se desfazer de suas calças jeans? Pois eu tenho algo a lhe dizer. Ninguém naqueles quatro dias tirou a roupa, pelo menos não para pôr biquínis e sungas. Foram quatro dias de baralho, cerveja gelada, risadas incontroláveis, violão e muita chuva. Foram os melhores dias da vida de alguns ali, acredita? Ah, e tem mais uma coisa sobre aqueles quatro dias: Suas celulites e quilos a mais, simplesmente não seriam notados.

Uma vez estávamos no aeroporto: eu e seu grande amor, esperando por um beijo, um abraço apertado, e alguma palavra que desfizesse todos os mal-entendidos. Eu e ele esperamos até o último minuto. Mas aí veio a última chamada, ele embarcou, e eu fiquei com aquela cara de pateta. Você me deu mais um bolo. Teve uma vez que eu estava em Salvador. Você tinha uma entrevista de emprego lá, lembra? O salário era o dobro daquele que você ganhava aqui, e havia mil perspectivas profissionais e pessoais. E caramba, era Salvador! Não, não me venha com essa. Seus pais passariam muito bem, obrigada. Eles ficariam realizados com as notícias que chegariam de Salvador, e teriam sido as melhores. Por que você não foi ao menos ouvir o que eles tinham a dizer? Porque não foi respirar os ares de lá, olhar para o céu, ouvir o seu coração? Estava tudo pago, era só ir à bendita entrevista! Por que?

Pois bem, eu voltei para “nossa cidade”, meio humilhada, meio com o rabinho entre as pernas, mas fazer o que? Eu teria que achar alternativas ao meu plano A. Eu queria tanto que você tivesse ido, mas você às vezes parece que tem medo de mim. Você tem? Me conta qual é o seu problema, vai. Eu não posso fazer mais do que já faço, sabe? Eu faço bastante! Às vezes eu estou aí dentro da sua casa, principalmente quando você pega um livro, vivemos momentos legais juntos. Eu gosto quando a gente canta e dança enquanto escolhe a melhor roupa, eu gosto do jeito como você se diverte com o ar quente do secador na sua cara enquanto seca o cabelo. Mas eu tenho uma coisa bem importante pra te dizer: na maior parte das vezes, eu estou aqui fora.

Eu estou nos lugares mais inusitados, com as pessoas mais improváveis, muitas vezes. Mas como você vai saber, não é mesmo? Eu te conto! Você tem que respirar mais, e fundo, e ouvir a voz do seu coração! Ele vai te dizer onde estou. Pare de me dar bolos, pare de me decepcionar, ou eu vou acabar desistindo de você. Eu tenho amigos inseparáveis, e se você encontrá-los, vai me encontrar também. A coragem, a vontade, a curiosidade, todas elas indicam o caminho. Acredita nelas, vai, elas são legais. Mas eu também tenho gente que me odeia, que faz você se afastar de mim: o medo, a descrença, a preguiça, eles vão te fazer acreditar que não vale a pena, que eu não me importo se você vem ou fica. Ei, acredita em mim, eu me importo. Eu te quero, eu te convido, por favor, pare de me ignorar. Um dia, quando você menos esperar, eu não vou estar mais disponível, e vai ser triste se não tivermos passado bastante tempo juntos. Pare de se fazer de bobo, tá? Você sempre sabe onde me encontrar.  Pare de ser negligente, isso simplesmente não faz sentido. Olha pra mim.

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6 comentários

  1. Nossa li esse texto e me vi em diversas situações, sempre deixando a vida pra lá, seja por preguiça, ou por achar que tem coisas mais importantes, como estudo e trabalho. Texto emocionante. Muito obrigado*-*!!!

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