Arte Disruptiva

Fomos para Dismaland, o parque muito doido do Banksy

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Texto e fotos por Sophia Alziri

Se você acabou de sair de um coma ou voltar de uma abdução alienígena e não tá sabendo que tá rolando uma exposição curada pelo Banksy, a gente explica aqui!

Se você não está nessa situação, além de ser um felizardo, já deve ter visto mil matérias sobre isso, mas agora você pode ler um relato de alguem que esteve lá e vai te contar o que viu.

Minha saga rumo à arte começou às 10h da manhã de (mais) um dia chuvoso, quando peguei um trem em Londres pra Weston-Super-Mare. Crente que ia chegar às 11h30, quando o parque estivesse abrindo. Coitada, depois de percorrer uma infinidade de quilômetros em que pelo menos 90% do caminho achei que estava indo pra puta que o pariu, cheguei na minha estação final e concluí que, de fato, estava, mas era lá mesmo que ficava a exposição.

Acabei chegando às 13h numa cidade que tem a maior sensação de coisa caída, e dá pra praia mais deprimente que eu já vi. Realmente, o clima chuvoso no interior da Inglaterra não ajuda. Mas pra começar, eu não encontrei o mar! A cidade parecia fantasma. Achei estranho porque imaginei que com a exposição estaria cheia de gente.

A belíssima vista pro mar de Weston-Super-Mare

Tudo isso já estava prometendo uma ótima ambientação pro tema do parque. Dismal em inglês significa: Triste, sombio, funestro, abatido ou como os jovens chamariam: bad vibe generalizada.

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Já na bilheteria a atendente me diz: se eu fosse você nem entrava. Deixou o troco cair na lama. Haha, começou massa. Fiquei animada apenas por um segundo quando me dei conta da fila que me esperava.

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Depois de enfrentar uma fila de uma hora e meia (lucro já que teve gente que no final de semana esperou 5 horas) na chuva, antes mesmo de entrar já estava a cara da decadência. Ótimo, a vibe tava armada.

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A pessoa mais deprimida que já vi na vida, a explicação veio alguns segundos depois quando me deparei com o sapato que ele usava. Realmente a vida da pessoa que chega ao ponto de usar isso não deve estar legal.

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A entrada é uma instalação maravilhosa do Bill Barminski reconstituindo uma segurança de aeroporto, só que tudo feito de papelão hahaha. Sério é maravilhoso. Tudo, câmera, máquinas de raio x, o cap dos policiais, computador.

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Os guardas nos tratavam como lixo. E muito sérios perguntam coisas do tipo: você mesmo que preparou sua mochila? Você andou bebendo? Você está portando alguma arma? Um dos guardas fez uma velhinha fofa ser revistada. Não entendi bem se ela tava entendendo que era uma encenação ou não, fiquei com peninha.

Passei tranquila pela revista e fiquei tirando fotos quando uma das guardas me escorraçou pra fora como se eu fosse uma vira-lata. Eu como boa idiota ri e ainda gostei. Pedi o panfleto do mapinha pra uma mulher e ela jogou no chão, catei e achei graça. Esse banksy é mesmo um piadista.

Agora, o relato fica confuso porque, quando você entra lá,  é tomado por uma euforia que embaralha todos os pensamentos. São várias atrações, e na maioria das coisas que você tem que interagir tipo o carrossel, roda gigante, o trailer que gira, tiro ao alvo, pescaria, é preciso pagar 1 libra.

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O tiro ao alvo é nada a ver. Você fica atirando rolhas em umas latas, mas valeu pelas risadas que eu dei.

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O que esperar: jovens fazendo selfies tristonhas (é a selfie oficial). Velhinhos locais e famílias levando suas crianças em um grande passeio de família. É serio. Talvez tenha sido porque fui num dia de semana à tarde, mas fiquei bem surpresa com o público presente.

A primeira coisa que vi foi uma grande galeria com fotos, quadros, esculturas. Tudo com temática critica/ irônica/ política claro.

Não tirei muita foto porque

1 – A bateria tava acabando (quando não ta?)

2 – Precisava viver aquilo intensamente.

Mas essas foram minhas coisas favoritas:

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Paco Pomet

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Jani Leinonen

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Jessica Harrison

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Dietrich Wegner

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A mega maquete da cidade é sensacional. Muito incrível ver a gente ali pequenininho, numa sensação gigante/força maior.

The Aftermath Dislocation Principle trailer v 3 from jimmy cauty on Vimeo.

A obra de arte mais engraçada já criada.

Imagina a cena. Um palco que é uma pista de carrinho bate-bate. Começa uma música de suspense, tudo escuro… e entra um carrinho com uma Morte dirigindo desenfreada, batendo na borda do palco e fazendo aquele barulhão que faz quando os carrinhos se batem. De repente começa a tocar Stayin’ Alive, luzes de disco acendem e ela fica ensandecida girando e se batendo pela pista. Ri alto. A musica para e a Dona Morte vai embora. Não entendi bem o que ele queria criticar com aquilo, mas era de uma zoera que não consegui aguentar. Tive que rir.

Se você não tá bom de imaginação pode roubar e dar play aqui
(vendo agora nem foi engraçado mas juro que na hora foi muito)

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Entrando no castelo rolava um filinha onde ficava rodando o filme da Cinderella. Quando chega nossa vez, somos empurrados pra um croma key e obrigados a tirar uma foto.  Somos expulsos pra uma outra sala completamente escura. Só dá pra ver uns flashes vindo de uma escultura muito realista de paparazzi fotografando a Cinderella e sua carruagem de abóbora capotada.  Se você não sacou, é uma referência à morte da Princesa Diana. Na saída, eles vendem fotos de souvenir tipo de montanha russa na Disney que eles te colocam junto com a obra da Cinderella. Muita gente tumultuando pra achar suas fotos. Rolou uma preguiça, então não fui ver a minha.

O souvenir mais massa/idiota era esse balão mas custava 5 libras.

Numa tenda de circo ficavam as coisas mais dark/freak, tipo: o unicórnio do lindo do Hirst, o mesmo cara que fez o tubarão em formol e umas louças loucas da Ronit Baranga que eu cogitei seriamente em ser presa pra poder tê-las. E também tem umas esculturas incríveis de um artista chamado Scott Hove que misturavam bolo, criaturas escabrosas e cristais.  O site dele tem muita coisa legal, vale a pena o clique!

Falando parece uma pira, mas olhando a foto você vai entender que era muito foda.

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Damien Hirst

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Ronit Baranga

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Scott Hove

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Uma das coisas que eu achei mais legais:

O trailer que gira!!
Gente, é a maior pira da vida! Entrando no trailer, somos espremidos em um banco. Um cara fala com um semblante deprimente que vamos viajar pro espaço. Já amei. Se você tiver náusea feche o olho e se vire. Na verdade você fica parado, e as coisas a sua volta giram então rola uma tontura nível hardcore, mas se você fechar o olho você percebe que está parado (eu acho). No começo rola aquele risinho de simpatia/desconforto da situação de estar ali espremido entre estranhos. Depois de umas giradas você começa a não entender mais nada que tá rolando, suas percepções ficam totalmente desequilibradas e tudo fica muito confuso. Por alguns minutos você já não sabe mais o que é o que e acaba dando muito uma sensação de estar no espaço girando mesmo. Todo mundo começa a rir muito. Quando acaba até rola um medo tipo meu deus como vou sair pro mundo real daqui? Um velho descolado que estava do meu lado e mais próximo da saída percebeu que seria o primeiro a se aventurar na realidade e fez uma carinha de “eita nois”. Olhamos todos pra ele com uma expressão facial de quem está entendendo seu drama. Nosso herói conseguiu e nos sentimos todos encorajados. Saí e pisei no chão ainda não entendendo bem o que tava acontecendo, melhor assim.

Aqui tem um povo passando meio mal no brinquedo-arte

Continuei.

Um grande cinema a céu aberto rolando um vídeo arte de um girafa pulando numa piscina.

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A música que tocava o tempo todo era muito boa. Escuta um trechinho aqui.

A encenação de tédio dos funcionários também era um ponto alto. Eu daria um Oscar pra todos.

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Várias esculturas legais ficavam espalhadas pelo parque, tipo essas:

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Outra parte legal era uma cabine pra imitar agência de empréstimos com tema infantil cheio de posters geniais do artista Darren Cullen tipo esses:

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Entrei numa cabana cheia de posters. Cada um era um soco na cara, ou melhor, um nocaute. Muitas coisas sobre imigração e especulação imobiliária que é um assunto super sério e debatido em Londres porque chegou a um nível surreal e está expulsando muita gente da cidade.

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Seria essa uma indireta pra nós brasileiros?

Por toda a exposição, Banksy, óbvio, faz mil críticas ao sistema esdrúxulo que é o capitalismo, jogando várias na nossa cara e chamando o espectador o tempo todo de burro. Eu acho esse approach maravilhoso, porque somos mesmo. Uma população que só se fode, e que não concorda mas aceita ser mandada por uma minoria só pode ser imbecil mesmo. Morar na Europa não te faz menos imbecil, não. Eu, você e todo mundo está incluído.  E não é engraçado.

Andei mais um pouco e vi um ônibus onde umas pessoas saiam chorando, naturalmente a galera ficou curiosa e formou mó fila. Várias atrações tinham filas  porque tinham um número limitado de pessoas que podiam entrar. Normal.

Lá dentro uma exposição chamada “designs cruéis”. Leia a introdução e fique bolado junto comigo (sério, vale muito a pena):

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Tradução bem lixenta pra ser usada só em caso de emergência: Essa é uma exposição de coisas que foram feitas pra te machucar. Cada uma delas controla, maltrata ou mata pessoas. Elas também são parte de uma política pautada na desigualdade e violência estrutural. Como governos e corporações tem como objetivo o lucro e a concentração de poder eles criam esses objetos para vocês. Eles falham ao reconhecer a real raíz dos problemas sociais, redefinindo-as como “medidas de segurança”. Que pode ser resolvido apenas por exclusão e encarceramento. A indústria de controle está crescendo nesses tempos de austeridade e neoliberalismo. Esses objetos são “armas menos letais”. O principio contraditório desses designs revelam a luta e os problemas sociais por trás deles. A concretização desses objetos faz com que exclusão e exploração pareçam apenas “o jeito que as coisas são”. Eles distanciam nosso senso de responsabilidade. Pessoas que criam ou compram esses objetos estão apenas “fazendo seu trabalho”. Mas esses objetos não representam uma progressão natural, eles não simplesmente apareceram ali. Eles foram feitos. E portanto podem ser desfeitos.

Exemplos desses objetos são espinhos em todos os lugares onde pombos (sim, eca) ficam mas onde de repente passarinhos lindinhos também poderiam ficar, bancos públicos desenhados pra moradores de rua não poderem dormir e câmeras de segurança.

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Mas até aí o pessoal ainda tava normal. Foi só quando espiei entre umas cabeças que em uma TV tava passando umas cenas daqueles docs de maus tratos aos animais(daqueles que organizações veganas passam), mostrando eles sendo abatidos de uma forma horrorosa e cruel. Todo mundo que já assistiu sabe do que eu to falando. Realmente, as imagens são fortes e é uma loucura pensar que aquilo existe e que nós ainda incentivamos isso com nosso dinheiro. Não tirando atenção nenhuma do assunto que é totalmente condenável e tem que acabar óbvio! Só que achei curioso que a exposição toda é uma critica a um sistema e medidas políticas que matam milhões de pessoas. Mas as pessoas choravam pelos animais.

Enfim, nos acostumamos demais com essas coisas e tantas outras e acabamos achando que é o normal. A gente não podia achar normal gente morando na rua. Toda vez que a gente vê essa situação a gente tinha que pensar: por que esse ser humano que tá na rua não pôde ter a mesma chance que eu tive de se dar bem na vida? Se você pensou: porque ele não se esforçou o suficiente, clica aqui. Sério, clica, por favor.

O negocio é que a gente se acostuma demais. Que é a genialidade do ser humano e razão maior pelo qual somos o topo da cadeia alimentar mas também uma das nossas maiores burrices.

A esse ponto eu já tinha perdido meu senso de humor. Tudo muito legal e genial, mas as coisas discutidas aqui são muito sérias e reais. Comecei a ficar puta com a galera achando graça de tirar selfie com o balão escrito eu sou um imbecil e postando no inxta. Fiquei pensando o que o Banksy pensaria se visse essa cena. Ele não é bobo, claro que sabia exatamente que isso ia acontecer. Queria saber por que ele acha que ainda vale a pena tentar fazer as pessoas acordarem desse jeito.

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Passada a raiva, veio a tristeza. Porque parecia que a maioria das pessoas tava se importando mais em mostrar pros outros que estava lá do que refletir nas coisas que estavam sendo discutidas. Também porque eu já perdi a conta de quantas vezes já estive em situações que fui confrontada com esses assuntos.

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dima9E eu odeio o fato de que a saúde é uma indústria, que os nossos índios continuam sendo mortos por agropecuários e madeireiros, odeio entrar no supermercado e ter 1 suco de fruta de verdade entre mil falsos e, pior, odeio que muita gente nem tenha condição de pensar nessas questões porque estão preocupados em como arranjar o que comer, onde morar, em como vão se salvar no meio do mar, tentando uma vida melhor. Odeio todas e várias outras coisas sobre a gente. Só que é sempre assim, me revolto, faço promessas pra mim mesma, mas depois esqueço, depois acostuma.

A conclusão que fica é: somos todos imbecis mesmo. A não ser que a gente resolva mudar.

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Se o mundo fosse o filme “Inception”

Texto por Sophia Alziri 

Dia de tédio no Instagram, sabe como é, né? O dedo só vai… a cabeça tá sei lá onde, você nem sabe por que tá ali naquela situação. De repente, o dedo pára. Você volta pra realidade. Pera aí, isso aqui é bom pra caralho. Foi assim que achei o perfil do Décio Araújo (@dearaujo).

As fotos dele são dessas que faz você prestar atenção, olhar de novo. Arquiteto, ele brinca com a relação entre pessoas, cidades e natureza. E assim tenta provocar a gente a olhar de forma mais crítica pras cidades. Nos estimula a achar beleza no dia-a-dia de concreto. São Paulo, obviamente, é o lugar perfeito pra isso.

Usando os diferentes tons de cinza típicos de São Paulo, aquele cinza bem claro quase sempre presente no céu, o cinza médio do concreto, o cinza escuro das pistas e as cores desbotadas de uma cidade usada e reusada a exaustão. Podia ser feio, se não fosse lindo.

As cores desbotadas viram poesia, as formas, quando repetidas e desapropriadas do seu contexto real, dão vida a outras viagens visuais.

A densidade urbana vira uma textura. E vendo ela pelo olhar dele, nos esquecemos da maçante e caótica realidade que é viver numa megametrópole.

As imagens que ele cria lembram aqueles bloquinhos de madeira que a gente brincava de construir prédios e castelos quando éramos crianças, lembra disso?

Só que em vez de bloquinhos ele usa apps ( UnionAppFragmentApp, e Filterstorm) e um celular. Piramos? Claro que sim.

Além de questionar o próprio espaço urbano, ele também vem pra questionar o espaço da arte. Um artista que produz imagens tão incríveis pode ser menos artista que alguém que expõem em um espaço físico? Ou que produz imagens com cola e papel? Parece que não, já que esse ano ele foi convidado pelo Instituto Inhotim, junto com outros artistas, para um visita privada que você pode conferir na #emptyinhotim.

Ele conta que a primeira vez que expôs suas fotos foi por meio da rede social.  E só através dela sua mensagem pôde chegar ao mundo todo.

O arquiteto, que cansou de construir e achou na fotografia uma forma de desconstruir e construir outras realidades, nos faz olhar de um jeito diferente pra esses espaços e isso, provavelmente, mude um pouquinho como a gente trata esse lugares.

A verdade é que desde que o homem se tornou seu próprio deus ao devastar o natural e reconstruir todo um relevo novo baseado nas suas (des)necessidades modernas, o homem materializou sua mente em uma nova paisagem, a selva de pedra, terra de arranha-céus e tudo aquilo. É claro que hoje temos consciência de que erramos feio em destruir a natureza, mas quem pode negar a beleza do que o homem construiu depois de ver essas imagens do Décio? Vamos olhar com mais paixão pras cidades e achar, em meio ao caos da falta de planejamento urbano, a poesia e beleza desses lugares que querendo ou não, são a nossa casa.

Vamos.

Gaiola de Concreto

Gaiola de Concreto

Claustrofobia urbana

Claustrofobia urbana

Mutação Urbana II

Mutação Urbana II

Superpopulação XII

Superpopulação XII

Barreiras Urbanas

Barreiras Urbanas

Percursos Caóticos

Percursos Caóticos

Claustrofobia urbana XVIII

Claustrofobia urbana XVIII

Oscilação urbana XXIV

Oscilação urbana XXIV

Gaiola de Concreto XX

Gaiola de Concreto XX

Claustrofobia urbana
Claustrofobia urbana

Claustrofobia urbana

Gaiola de Concreto

Gaiola de Concreto

Superpopulação XVI

Superpopulação XVI

Oscilação urbana XVI

Oscilação urbana XVI

Ninguém entende nada de arte

Temos uma mania chata e, sem o menor sentido, de achar que vamos para exposições de arte pra entender sobre alguma coisa. Como se a arte trouxesse a resposta de alguma coisa, mas ela não tem uma resposta nem sobre ela mesma.Queremos a resposta de tudo, porque tudo tem que ter uma explicação. A arte que retrata a beleza, as minuciosidades da vida e a realidade parecem simples de serem entendidas. Você sai com a sensação de que, tudo bem, esse artista é ótimo e a experiência de sair de casa pra ver arte se concluiu. Mas, quando você se depara com uma arte que te faz questionar, você quer se trancar num quarto escuro e esquecer que a vida existe, porque ela te coloca em contato com o sentido da vida e te mostra mais uma vez que você não entende nada. Você não faz a menor ideia de por que existe, quem é você e o que faz aqui. Você odeia não entender nada sobre a obra, porque se sente desafiado. As obras que você não entende nada te colocam à frente desse abismo, que, eu sinto te informar, mas é o seu próprio abismo.

Se a gente tivesse um olhar mais limpo sobre a arte, estaríamos mais abertos pra ela. Se a gente não tiver medo de se olhar mais de perto, a arte desperta uma sensação de total pertencimento. Quando você se abre inteiro pra uma obra, se colocando no mesmo estado em que o artista estava quando a criou, essa sensação de vazio, some. Você se sente parte daquilo. Não é necessário saber mais nada. Existir basta. É o que o mundo tem tentando nos dizer, mas a gente quer aquilo que se explica. A gente quer o tátil, mas o invisível é essencial aos olhos.

Eu só comecei a realmente apreciar a arte quando eu me livrei dessa ideia de que precisamos entender sobre arte. A verdade é que ninguém entende nada. Gosto de chegar nas exposições sem saber o que esperar. Cada obra tem seu tempo. Algumas me tocam, outras me fazem querer ficar olhando pra elas por 10 minutos estaticamente, outras tem um teor histórico muito alto, que me fazem ficar vidrada. Nenhuma delas me traz respostas. Até a arte bonita e não provocativa me provoca. Tento olhar para elas sem nenhum julgamento e deixar ela falar por si só. Mas por que você gostou dessa obra de arte? E eu nunca vou saber te explicar, porque tem sentimento que não se explica. Sua conexão com a arte não é pra ser explicada. É pra ser sentida. Sem preconceitos, sem ser porque alguém falou que tal artista tá na moda, e sem ser pra tentar entender. A arte é muito pessoal e não precisa ter técnica e nem estudo nenhum pra apreciá-la. A arte é livre porque é muito mais interna do que externa.

Dentro da arte a gente descobre um mundo de possibilidades onde não existe o certo e nem o errado. Se foi assim que você viu, então é assim que é. As interpretações são muitas, ainda bem! Você pode criar e ser o que quiser dentro desse mundo. A arte não foi feita pra ser entendida, mas sim para que a gente se questione e entenda melhor sobre nós mesmos.

O Mundo Mágico de Oprisco

Texto por Marcela Picanço 

Quando eu vi as fotos do Oleg Oprisco pela primeira vez, fiquei em choque. Não sei se pela beleza das cores ou pela melancolia que todos os personagens das fotos carregam. Se você para pra observar, todos os personagens têm o mesmo olhar. Cabe a nós interpretarmos aquilo que eles sentem. Cheguei à conclusão que essa visão varia de acordo com nossos próprios sentimentos. Às vezes pode ser saudade, tristeza, angustia, esperança, superação… Já olhei pra cada uma dessas fotos com uma percepção diferente.

Ele criou outra realidade e esse mundo é vazio e ao mesmo tempo encantador. Ele definitivamente é um dos meus fotógrafos preferido hoje em dia, justamente por criar em cima daquilo que já existe, mas ainda assim conseguir transformar tudo em algo mágico, que nos teletransporta pra sua própria imaginação.

Pra ver mais fotos, entre no site oficial do Oprisco e se encante mais do que você achava que poderia.

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WELCOME TO DISMALAND

Texto por Marcela Picanço

A Disney ficou até sem graça depois da Dismaland, uma exposição do Bansky, de pirar o cabeção! As obras ficam dentro de um parque com o tema voltado pra distopia.

Dentro das muralhas de um resort de natação abandonado à beira-mar em Weston-super-Mare, no Reino Unido, o misterioso Bansky resolveu fazer uma experiência diferente pra mostrar alguns dos seus trabalhos. Como sempre, ele satiriza os lugares-comuns da nossa sociedade, como a Disney e provoca uma sensação de estranhamento e identificação com o público. O lugar é meio macabro e, algumas obras surreais, parecem estar no seu perfeito lugar nesse mundo que ele criou dentro do parque. Nós, telespectadores, temos a sorte de poder passear por esse universo e nos encantar, de uma maneira esquisita, por essa arte que aponta o dedo na nossa cara por sermos quem somos.

Apesar da exposição ser do Bansky, apenas 10 obras são dele. 50 artistas do mundo todo estão com obras expostas lá, como Damien Hirst, Bill Barminski, Caitlin Cherry, Polly Morgan, Josh Keyes, Mike Ross, David Shrigley, Bäst e Espo.

Até ficar pronto, ninguém sabia o que seria feito no parque, porque eles fecharam tudo e falaram que estavam gravando um filme chamado Gray Fox. Alguns pensaram que era uma releitura do filme, afinal ele já foi feito em 1982.

Além de obras fixas, durante a visitação acontecem várias perfomances artísticas no parque e as obras interativas também são uma das atrações principais.

A abertura do Dismaland  é hoje, dia 22 de agosto e fica exposta até 27 de setembro. As informações sobre bilhetes está disponível aqui. Há também uma série de eventos, incluindo um show da Pussy Riot e Massive Attack em 25 de setembro.

Considerações sobre Fumaça e Musgo

QUANDO ESPORTE E CINEMA SE MISTURAM

A Internet é um mundo mágico onde você vai abrindo portas que se abrem pra outras portas. Tipo uma cebola que tem várias camadas e você vai descascando e encontrando cada vez mais. Eu já descobri tanta coisa incrível pela internet e pelas dicas de amigos em mídias sociais que me recuso a falar mal de qualquer uma dessas tecnologias. Passeando por aí em algum desses sites, fui clicando em nomes de páginas que eu me interessavam e de repente cliquei num vídeo que me levou ao AFTERGLOW!

Eu não sou muito ligada a esportes, mas esportes radicais deixam qualquer pessoa sem piscar por um tempo, esperando aquela manobra se completar. Quando começou um vídeo de ski, à noite, cheio de luzes coloridas, com uma galera esquiando numa montanha de neve gigante, pensei que eu tinha que parar pra ver. Por 3 minutos e 19 segundos, fiquei totalmente hipnotizada com o vídeo. Depois fui descobrir que o que eu estava assistindo era só o teaser do filme, que tem 12 minutos de duração ao total. Pra ser sincera, preferi o teaser, mas vale a pena assistir ao curta todo.

O curta foi produzido pela  Sweetgrass Productions em parceria com a Philips TV, Atomic Skis e  Ahlstrand & Wållgren e dirigido por Nick Waggoner e Mike Brown.

Pode clicar nesses nomes sublinhados que você vai perder uma tarde ou uma noite inteira descobrindo as coisas maravilhosas já feitas por essa galera. Vai por mim, a Internet é esse mundo maravilho, você só precisa descobrir onde procurar!

Bom, chega de papo e assista ao teaser incrível sobre ski de uma forma que você nunca viu antes:

AFTERGLOW – Lightsuit Segment from Sweetgrass Productions on Vimeo.

Aqui vai o filme todo, de 12 minutos! Bem reflexivo, com imagens lindas, trilha sonora incrível (já baixei toda), e com o texto maravilhoso também, pena que não tem legenda.

AFTERGLOW – Full Film by Sweetgrass Productions from Sweetgrass Productions on Vimeo.

Carta para Kandisnky

Esse texto estava na aba Arte Diruptiva aqui no blog, mas resolvi passar ele pra cá pra ficar coladinho com o Picasso. A exposição do Kandisnky aconteceu no começo do ano!

Caro, Wassily Kandinsky,

Você não sabe quem eu sou e provavelmente nunca vamos nos conhecer. Mas, como a arte faz a gente pensar coisas inimagináveis, resolvi escrever esta carta. Hoje eu fui à uma exposição sua que está rolando no CCBB do Rio de Janeiro. A abertura foi ontem, dia 28, e vai durar até 30 de março. Essa exposição já passou por Brasília, depois vai para Belo Horizonte e São Paulo. É a primeira vez que suas obras saem da Europa e vêm para o Brasil. As peças que estão na exposição são do acervo de vários museus e coleções particulares. Eu vi quadros seus, objetos, fotos e algumas coisas que você escreveu. Você, além de pintar, tinha o dom da palavra. Escreveu livros e descrevia a arte da forma que eu vejo, como algo mágico. Além das suas obras, vi quadros de outros artistas, como da sua ex-mulher, Gabriele Münter. Achei ela incrível! Confesso que não conhecia o trabalho dela, mas me surpreendi quando descobri que ela era sua aluna e de repente vocês se viram tomados pelo amor. Também vi obras de Alexej Von Jawlensky , Mikhail Larionov, Pavel Filonov, Nikolai Kulbin e Aristarkh Lentulov. Alguns deles eram seus colegas de arte, não é? Resolveram juntar todo mundo na exposição para mostrar um pouco sobre a arte moderna e contemporânea.

Eu sempre soube quem você era, porque, claro, você é o pai do abstracionismo e eu sempre gostei muito de arte abstrata. Quando eu era pequena, achava que não sabia desenhar direito. Meus desenhos eram sempre mais feios do que dos meus amigos. Então, eu resolvi pintar rabiscos, misturar cores que não faziam sentido para ninguém, mas para mim, faziam todo o sentido do mundo. Depois eu nunca mais pintei. Comecei a achar que deveria criar algo que as pessoas entendessem melhor, por isso comecei a escrever.

Hoje, quando eu te encontrei através de cores e rabiscos, resgatei aquela menininha que colocava todo seu sentimento na tela. As cores, depois de um tempo, criam vida, que nem as palavras fazem em um texto. “Eu vi todas as minhas cores em espírito, diante dos meus olhos. Selvagens, linhas quase loucas foram esboçados na minha frente”, você disse. E eu acredito que seja verdade. As cores têm sons e texturas que nós não conseguimos perceber. Talvez você seja uma espécie de mago. Você tinha essa relação com arte e espiritualidade, né? São Jorge era um santo que te provocava uma reação diferente, tanto que você fez um quadro abstrato dele. Depois que eu descobri que aquele era São Jorge, o quadro saiu do abstracionismo para mim. Isso que é o mais interessante na arte abstrata. De tanto olhar, uma hora você para de observar o quadro para fazer parte dele.

Você nasceu na Rússia, em Moscou, estudou direito, porque era o sonho do seu pai, mas depois que viu um quadro do Claude Monet e assistiu à ópera Lohengrin, no Teatro Bolshoi, decidiu que deveria investir na carreira de artista. Em 1869, você se mudou para Alemanha para começar um curso de pintura. Logo no começo, seu professor disse que as cores que você usava eram muito chamativas e diferentes, por isso você deveria pintar apenas em preto e branco. Isso lhe rendeu algumas xilogravuras que eu também encontrei na exposição. Mas para você isso foi uma afronta, já que as cores eram aquilo que mais lhe chamavam atenção.

Você trabalhou por muito tempo como artista independente e em suas obras fica claro sua ligação com a arte popular, o folclore russo, a cultura popular da Sibéria e rituais xamânicos. A parte fantástica e surreal dos contos de fadas que você ouvia desde pequeno te ajudou a se desprender um pouco do naturalismo, que era fortemente reconhecido na época. Além da música, as histórias surreais influenciaram muito o seu estilo. Você tinha um forte apego com aquilo que não se explica.

Depois de entrar em contato com os Zyrianos, um povo ugro-fínico da nação Kómi que tinha conexão com o xamanismo, você chegou à conclusão de que através da arte o homem e o divino podem criar uma relação direta. Essa ideia é muito antiga e vem desde os nossos primórdios, quando a arte era usada como forma de poder para atrair ou espantar maus espíritos. Descobri que você, a partir de então, procurou em cada objeto uma manifestação espontânea ou expressão de seus sons e cores interiores.

O artista tem o papel de juntar os dois mundos. Por isso você escreveu que “pintar é detonar um choque de mundos diferentes”. Eu acredito que você esteja falando do nosso mundo tátil e do mundo “divino”, o qual não temos acesso e não sabemos nada. Eu chamo esse mundo de mundo das ideias. E você é o grande responsável por trazer tantas ideias em forma de cor. Você é a ponte entre o nosso mundo e o das ideias.

Sua arte chama atenção porque existe um pouco da sua história em cada traço. É completamente autêntico. Cada caminho que você percorreu pela vida, cada história que ouviu, cada cultura que conheceu, cada arte que você se encantou, fazem parte das suas obras. Eu tinha uma vaga impressão sobre você, mas agora sinto que te conheço muito bem. A arte é uma porta de entrada para a alma de alguém. Depois de olhar de perto algumas das suas pinturas, senti como se eu te olhasse de perto e percebi que temos mais coisas em comum do que eu imaginava. Por isso, me senti tão à vontade de te escrever essa carta. Você mudou minha percepção sobre arte abstrata, porque descobri que o abstrato é um espelho do artista e um espelho do espectador. A identificação é instantânea.

Obrigada.

Com carinho,

Marcela.

Texto que eu escrevi para a revista NOO.

CARTA PARA PICASSO

Caro, Pablo Picasso,

Ontem eu fui na montagem da sua exposiçã no CCBB, aqui no Rio de Janeiro. Não sei se você já teve chance de conhecer essa cidade, mas ela é linda. Acho que você teria se inspirado bastante aqui. Eu me inspiro, pelo menos. Sua exposição se chama Picasso e a Modernidade Espanhola e a abertura vai ser amanhã, dia 23 de junho e vai durar até 7 de setembro. São 45 quadros seus, entre desenhos e esboços e mais 45 de outros artistas tão incríveis quanto você, afinal todos eles tiveram influência sua. Salvador Dalí, Joan Miró, Óscar Domínguez, Antoni Tàpies e Juan Gris, são alguns exemplos.

Eu vi seus quadros sem aquela maquiagem de luzes, que fazem bastante diferença em uma exposição. Vi eles apoiados com cuidado no chão, vi os cálculos que fizerem para ele ficar no local certinho da parede. Foi a primeira montagem que eu fui na vida e percebi o trabalhão que dá cuidar de todas essas obras que valem milhões. Muito cuidado com tudo. Eu passava e as poucas pessoas que estavam lá entre imprensa, restauradores e produtores, todos olhavam pra mim querendo saber o que eu fazia lá. Queria dizer que eu não fui fazer nenhuma reportagem jornalística sobre a exposição, mas que eu tinha ido te conhecer e escrever sobre esse encontro. Confesso que gostei de ir crua, sem esperar por nada, sem saber exatamente o que cada obra falava. Ainda não tinha aquela plaquinha que explica e conta em que período da vida você estava. Era só eu e você, sem traduções. A assessora que me acompanhava segurava um papel com a explicação de algumas obras, mas não vejo a menor graça em saber sobre a obra antes dela mesma se apresentar. Eu e a tela. Existe uma relação ali entre o artista e o público que não pode ser explicada em palavras.

Eu não queria nem saber de movimento artístico, apesar de você ser o precursor do cubismo, pra mim, isso tudo é superficial em comparação ao que seu trabalho causa nas pessoas. Todo mundo ali te via como um objeto valioso. Não estou criticando o mercado da arte, que hoje se transformou em um mercado de luxo, (acho que você sabe muito bem disso), mas quando o valor do quadro se sobrepõe à mensagem, acho que alguma coisa se perde. Arte pra mim é tipo mágica. É uma das formas mais genuínas de transformar um pensamento, transformar as ações das pessoas, mexer com o interior delas. Você me transformou ali, de alguma forma. Foi uma troca e eu quase pude ouvir os ruídos daqueles mil personagens misturados.

Quando eu olhei os esboços e desenhos, fui percebendo que esses personagens apareciam de novo em outros quadros maiores. O cavalo, a mulher triste, o minotauro. Não sei se eles queriam dizer alguma coisa, não sei se você queria que eles simbolizasse algo, mas ninguém poderia me dizer isso além de você. As vezes um desenho só quer dizer exatamente aquilo ali. O resto é especulação. Por isso não importa o que você queria dizer. Pra mim, me interessa o que eu senti ao ver aquela cabeça de cavalo com olhar angustiado querendo sair do quadro. Querendo viver. Não sei se era você ou se representava o povo sofrendo um bombardeio, mas sei que minha garganta fechou e ao mesmo tempo que tive vontade de rir, tive vontade de chorar porque um ser inanimado, sem som, sem movimento me causou algo tão forte. Fazer o quê?

Conversei com o curador da sua exposição e percebi que ele foi a melhor pessoa que poderiam ter escolhido. O nome dele é  Eugenio Carmona, historiador e professor de História da Arte da Universidade de Málaga, na Espanha. É uma pena você não ter conhecido ele. Aposto que virariam amigos, porque, apesar de não conhecer bem nenhum de vocês dois, acho que vocês têm algo em comum. Ele também é um dos membros do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, de onde a maioria das obras da exposição vieram. Eugenio me explicou que no CCBB do Rio ele teve mais espaço para fazer a exposição do jeito que ele imaginava.

Pintou as paredes de várias cores diferentes e decidiu começar a mostra com seus esboços e desenhos. Assim, o público vai identificando as figuras nos próximos quadros. Depois vão aparecendo os outros artistas e assim fui percebendo sua influencia em todos eles. Teve até um quadro do Dalí, o Arlequim, que jurei de pé junto que era seu. Eugenio me explicou que a cor de cada sala representa um momento diferente e fez isso para que o publico percebesse que cada sala deve ser vista com novos olhos. A cada cor de parede diferente as obras têm algo em comum que as unem. Por exemplo, na última sala, a laranja, o que une cada obra é o fato de todas representarem algo sobre a natureza.

Perguntei pro Eugenio se ele também era artista, por ter esse olhar profissional e sensível sobre arte. Ele me disse que não, porque se fosse artista ele não conseguiria separar sua percepção sobre a arte. Ele tentaria sempre impor ao público a sua visão e isso não seria justo. Disse que para ser curador é melhor ser um historiador, um entendido sobre o assunto e assim todo mundo tem uma visão mais clara de cada artista que está sendo exposto. Você não acha isso fantástico, Picasso? Em um mundo onde todo mundo quer impor a sua opinião, ele prefere criar oportunidade para que os outros criem a sua própria. Imagino que você gostaria de saber isso. Tem alguém se importando com a sua arte, tem alguém que sabe o poder transformador que ela tem. Seus trabalhos valem milhões e acho justo que seja assim. Só não quero que os personagens dentro desse trabalho morram junto com a superficialidade mundana. Quero que esses personagens sejam vistos de formas diferentes entre o público, porque não adianta nada se não for assim. Arte é um reflexo. E acho que você concorda comigo nesse ponto.

Com carinho,

Marcela.

Leia também a Carta para Kandinsky.

Também publiquei esse texto na NOO!

“Mulheres que Sonhamos” – A arte da beleza natural

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Fazer um ensaio sensual com mulheres não é algo fácil. É preciso saber qual é o ponto de partida e o ponto final  de cada uma delas. Mas para descobrir isso é preciso entender o meio do caminho. Ao mesmo tempo que fotografar mulheres é algo gratificante, também é um processo que precisa ser estudado com cautela, com o olhar de quem enxerga além de apenas corpos femininos. Nós, mulheres, temos nossa vaidade, nossos hormônios chatos e nossa auto-estima que parece sempre abalável e a vontade constante de nos sentirmos bonitas. É complicado retratar tamanha inconstância.

Em uma época como a nossa, em que estamos rediscutindo os padrões de beleza e insistindo na ideia de que a beleza não deve ser imposta, um projeto sensível como o do fotógrafo Bruno Brin tem um peso enorme e deve ser admirado com cautela. O projeto “Mulheres que Sonhamos” reúne fotos de várias mulheres diferentes em situações simples do dia a dia, mas sempre traduzido por um olhar artístico. Como se existisse arte e beleza em cada movimento dessas mulheres e como se houvesse mágica espalhada pelo ambiente onde as fotos foram feitas. As mulheres que participaram do ensaio não recebem nenhuma edição ou retoque no photoshop, pois o Bruno pretende mostrar o valor da mulher ao natural e como a beleza pode ser vista de vários pontos de vista.

Caroluciana

Ele investe em jogos de luz, movimento e espontaneidade para que sua câmera funcione quase como um buraco da fechadura, para que a gente possa enxergar o mundo simples, pessoal e incrível dessas mulheres sem objetificá-las. É muito difícil retratar o lado sexy das mulheres sem cair na banalidade vulgar, mas Bruno mostra através de suas fotos que esse lado sensual feminino fica muito mais evidente quando é tratado de forma natural e não por exigência social ou até delas mesmas.

O ponto principal do trabalho de Bruno é que ele se deixa ausentar nas imagens para colocar as mulheres no foco, como os personagens mais importantes naquele cenário. Ele toma cuidado para mostrar exatamente como cada mulher fotografada é de verdade. É por isso que cada ensaio desse projeto te surpreende cada vez mais, pois todos contam uma história diferente. Todos têm vida própria, pois são aquelas mulheres contando em imagens estáticas sobre a vida delas. Geralmente, em um ensaio sensual fica muito mais visível aquilo que o fotógrafo quer passar, pois ele dirige as modelos, escolhe a luz, as posições, as locações. No caso do Bruno foi diferente. Ele quis deixar que as mulheres falassem por elas.

Eu posso afirmar isso com um olhar de quem teve o privilégio de ser uma das “Mulheres que Sonhamos”. No meio do processo, nem lembrava mais que eu estava fazendo um ensaio sensual. Eu só estava em casa, conversando com um cara gente boa que tirava umas fotos minhas enquanto eu ia contando casos da minha vida fazendo umas poses engraçadas. No final, o resultado foi uma série de fotos que eu amei e que diziam muito mais sobre mim do que eu poderia imaginar. Fiquei muito satisfeita ao perceber aquilo que todos os dias eu preciso reforçar para mim mesma quando eu me olho no espelho: minha beleza natural tem mais valor e é muito mais bonita porque é quem eu sou de verdade. Acho que a ideia do projeto é reforçar essa percepção em todas as mulheres. Ou melhor, em todo mundo.

S.Marx C.Huber

 

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