mundo

Sobre aquele mundo ao meu lado

Texto por Natália Beraldi

Mais uma vez atrasada, corri pelo saguão do aeroporto buscando a porta 36 de embarque, cruzando 2 minutos antes de fechar. No corredor, a caminho da aeronave, avisto uma mulher que me tranquiliza pela calma e serenidade em que caminha, mostrando que não sou a única. Por coincidência a poltrona dela era ao lado da minha, na janela. Não trocamos nenhuma palavra, sentamos e logo ela virou o olhar fixamente para a janela, e dali não saiu mais. O voo durou um pouco mais de 5 horas, e foi a única coisa que ela fez. Passaram-se por nos pessoas de todos os cantos, falando diversos idiomas, e enquanto eu observava buscando entender o que se passava com cada um deles, ela continuava lá, intacta. Pensei em cutucá-la e dizer que foi sem querer, tentar puxar uma conversa, mas algo me dizia que aquele momento, apesar de parecer agoniante, era o tempo que ela precisava ter, era algo que ela precisava passar, um turbilhão de vida se passava ali, naquela reflexão, de dores, amores, desilusões talvez. Pensei se ela podia ter deixado seu coração para trás no momento em que embarcou, ou se ela estava indo de encontro a ele.

Pensei em dizer que o amor vai pra onde tem que ir, pra onde tiver vida e um ombro, que ele pode superar essas milhas que já passamos, e muitas mais. Pensei em perguntar se ela estava deslumbrada com a vista e contar que eu fico assim também, choro facilmente, sinto a garganta fechar, o coração transbordar de deslumbre.

Eu quis chama-la quando o sol nasceu, quis comentar o quanto estava bonito, quis questioná-la se não ia fotografar aquele momento e quis pedir licença para encaixar meus olhos naquela vista também. Quis apertar a sua mão quando avistados a Cordilheira dos Andes de cima, em algumas partes coberta de gelo, em outras partes confundindo com nuvens de algodão.

Queria acreditar que ela estava feliz, que era um momento de liberdade e não de solidão. Queria lembra-la que não estava sozinha, e que o mundo estava esperando para curar qualquer coisa que algo ou alguém já houvesse causado. Queria enfatizar que ela seria capaz e que não precisava ter medo. Queria dizer que ela iria achar novos motivos e que ela podia chorar, de felicidade ou tristeza, seja o que for, menos de solidão. Não, ela não estava só. Ela estava pronta para descobrir qualquer coisa, e o mundo jamais a deixaria sozinha. Sua liberdade já tinha virado asas, bem maiores que as daquele avião.

Mas eu tinha certeza que o motivo daquele olhar perdido não estava naquela janela, e sim dentro do coração. Talvez o que ela sentisse fosse culpa, e eu jamais vou saber o tamanho do peso que ela carregava calada. Talvez ela só tenha resolvido ir embora e estava refletindo se havia sido uma das melhores ou piores decisões de sua vida. Talvez ela esteja procurando respostas e as suplicando em cima das nuvens. Talvez ela só esteja tentando aceitar. Talvez ela estivesse indo encontrar amigos, queridos apoios, ombros, alguns abraços ou cervejas. Talvez ela só precisasse se sentir mais segura. Talvez ela só estivesse buscando por si mesma.

Enquanto isso, eu só queria fazê-la enxergar o quão grande é o mundo, e o quão pequenos somos. Eu queria dizer que ela pode ser a comandante dessa história e desse destino. Que é possível começar e recomeçar, sempre que for preciso e de um jeito muito melhor.

Eu espero que ela se dê conta que, lá fora, lá em baixo, encontrará amor em cada canto, se esse for o seu desejo, e descobrirá que errar nem sempre significa um fim, e sim uma descoberta para um novo começo.

Havia três lugares, de um lado um homem dormiu o tempo inteiro, que sorte. E do outro, um mundo rodou. Talvez ela tenha sonhado acordada tudo o que o homem não conseguiu dormindo.

O que ela havia deixado pra trás?

Que história incrível aquela janela de avião descobriu aquele dia. Que desabafo feliz ela despejou por entre as nuvens.

E quando o avião pousou e as portas se abriram, eu quis olha-la pela última vez. Quando me virei com a intenção de despedida, ela ainda continuava lá. Parti desejando que aquela mulher, que passará horas ao meu lado sem desviar o olhar da janela daquele avião estivesse apenas feliz, apenas livre ou apenas indo em direção de um sonho, ou um amor, ou os dois. Que bonito seria…

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Como ser um explorador do mundo

Texto por Marcela Picanço

Leia o texto com essa música criada por Henrique Caixeiro e Daniel Perlin, da Gazebo 304.

Há um tempo eu tenho ouvido falar sobre a profissão de coolhunter. Esses profissionais passam a vida procurando referências para juntar tudo e descobrir qual vai ser a nova tendência que vai encher os olhos de todo mundo. É uma mistura de marketing, comportamento do consumidor, arte e MUITA pesquisa. Talvez essa seja a profissão mais legal do mundo. Imagina, ficar o dia inteiro descobrindo coisas! Mas não é tão simples assim, né? Claro que nem sempre ele vai criar alguma coisa, mas vai dar o caminho pra que as empresas lancem seu novo produto ou façam uma nova campanha. A questão é que dá pra ter o espírito coolhunter de várias formas; até mesmo para os seus projetos pessoais. O importante é ter um olhar crítico e perceber que tudo tem um potencial. O Coolhunter foi só uma especificação pra uma profissão que PRECISA estar ligada o tempo inteiro, mas pra olhar o mundo como um artista, para criar algo novo e relevante, é preciso ser assim também.

As coisas podem parecer inanimadas, mas tudo é vivo. Tudo tem um sentido que pode ser criado por você, e é por isso que tudo tem uma magia por trás. Uma folha caída no chão pode servir de inspiração, talvez seja a peça chave da sua ideia. Anote tudo e preste atenção em tudo. Prestar atenção não significa apenas saber tudo que está acontecendo ao redor, mas olhar fixo pra cada coisa. O degradê da natureza é uma das coisas mais incríveis que existe. Já parou pra observar? O céu é uma pintura que muda a todo instante e nunca fica igual. Uma maçã é amarela e vermelha e essa combinação de cores parece completamente perfeita ali. A areia tem milhões de tons, as pessoas têm milhões de tons. Esse tal de Deus, se existir, deve ser um artista plástico bem indeciso. Sorte a nossa que ele tem essa indecisão toda e não deixa nada monótono.

Pra ser original, é preciso repetir padrões até chegar na sua ideia brilhante ou até conseguir criar algo que realmente faça a diferença; como uma tendência por exemplo, que influencia uma sociedade inteira. O legal é criar algo que realmente faça diferença na vida das pessoas, pra que elas se questionem, se instiguem ou puxem as pessoas pra cima.

Nenhuma ideia surge do nada, então tenha referências, pesquise, procure. A notícia boa é que tudo pode servir como referência. Os melhores criadores de tendência são aqueles que percebem essa referência nas coisas comuns que ninguém vê. Uma folha seca, uma garrafa de água, o jeito que um livro cai no chão e faz determinado som. Tudo é experiência, tudo serve na hora da criação, por isso, é preciso estar atento e anotar tudo. Registre TUDO que pareça interessante de uma forma interessante. Não importa o jeito que ela vai ser registrada, mas registre. Tenha um espaço para guardar suas referências. Você vai precisar de todas algum dia.  Não inventa que vai lembrar depois, porque você sabe que não vai. Nunca descarte uma ideia. Às vezes, ela não é boa agora, mas no futuro vai servir pra outra coisa que você nem imaginava. Pare de procurar a resposta. Descubra quais são as perguntas certas.

Ouça mais do que fale. Todas as pessoas são interessantes. Se você não viu nada é porque não olhou direito. Todo mundo tem histórias pra contar e todo mundo conta uma história de um jeito único. Anote as histórias, interprete as feições e os sentimentos. Tente descobrir o que está por trás de cada palavra, cada gesto. Nada deve ser descartado quando se trata de gente. Elas são o foco de qualquer criação.

Mude rotas. A gente tem o costume de sempre ir pelo mesmo caminho para os lugares. Tente descobrir novas formas de ir. Pare em algum lugar que você sempre passa, mas nunca se dá a chance de conhecer as pessoas dali. Procure a origem das coisas, as raízes de tudo. Elas são um bom fio condutor de uma história. Observe a luminosidade do dia. Minha hora preferida é às 16h. A luz reflete nas coisas de um jeito diferente em cada momento do dia, por isso, uma rua passa a ser várias ruas diferentes em cada momento do dia. Descubra sua hora preferida e aprecie esse momento sempre que puder. É o seu momento.

Incorpore e aceite que tudo é inconstante. Nada está finalizado e você tem a oportunidade de vivenciar isso. Viver é isso. Todos os dias você tem a oportunidade de ver o processo de transformação das coisas. Sua criação já tem todas as ferramentas necessárias e está tudo ao seu alcance. Olhe de novo, se achar que não viu nada. Dialogue com o ambiente a sua volta. Crie um modo de fazer isso, não me interessa como. Eu ainda estou tentando descobrir o meu.

Pare de procurar um sentido para as coisas. O sentido está em volta de você. O tempo inteiro.